Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 88

limita-se a acompanhar o andamento geo- gráfico das sequências através das fontes de luz que incidem no ambiente e nas faces das pessoas, do modo como os personagens de Tourneur permutam seus contornoscom as sombras. Na cena do assassinato no cemitério em O Homem-Leopardo isso se dá no nível da decupagem onde há troca de planos, que- bra de eixo e assimilação de pontos de vista distintos até que os sentidos da personagem entrem em frequência com a fonte do perigo iminente. É recorrente que lançando um segundo olhar sobre a geografia em que se encon- tram, os personagens acessem a estranheza crua que jaz sob as superfícies. O caminho acidentado e desorientador através do cana- vial que Betsy tem de transpor ao lado da inerte Jessica rumo ao Houmfort vodu de I Walked With a Zombie não é respaldado pelo mapa desenhado pela empregada Alma no pó de açúcar minutos antes. Esta situação encontra paralelos em A Noite do Demônio quando Holden invade a propriedade de Karswell através de um bos- que. Sua ida ocorre sem maiores transtornos, mas na volta há de fato um anteparo singular que cruza caminhos com o personagem, e em decorrência da percepção aguçada o bos- que se transfigura em uma mata amaldiçoa- da. Muito do triunfo do horror em Tourneur reside na fragmentação dos espaços naturais e através disso escancarar naqueles caules, folhas e raízes o quão labirínticas e parado- xais são as relações dos próprios persona- gens com a natureza. Nota-se para dois momentos em que no escuro, a personagem acuada é surpreendi- da por um rugido mecânico que mimetiza o rugido de um grande felino em Sangue de Pantera e O Homem-Leopardo. No pri- meiro, acaba por ser um ônibus parando no ponto, no segundo há uma supressão do som que impede a personagem – e o espectador, por consequência, de notar o som do trem se aproximando até o momento em que ele pas- se nos trilhos da ponte que se encontra sobre o vão em que a personagem está encurralada pelo medo, pelo escuro e por um leopardo. Invariavelmente nestes filmes, quaisquer índices corroborando o sobrenatural versus o ceticismo remontam a um radical em co- mum, tais resultantes sendo primeiramente a estafa ante às perpétuas ruínas do ser huma- no (medo, resignação, insegurança) e mais adiante, da supremacia do acaso. Os monstros de Tourneur (felinos e derivados, demônios e zumbis) são ferramentas da pura aleatorieda- de que rege o mundo na sombra da dúvida. 87