Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 87
4) de volta ao Houmfort, o feiticeiro
derruba a boneca de Jessica, se ajoelha e a
perfura no peito com uma agulha.
5) corta para Wes ajoelhado diante da
verdadeira Jessica estirada no chão, se le-
vantando lentamente, com a flecha na mão.
6) em um plano conjunto, na praia, ve-
mos o guardião Carrefour se aproximar para
carregar o cadáver de Jessica.
O intrigante é que a montagem paralela
geralmente é usada para encadear eventos
associados entre si em algum nível. O natu-
ral seria uma predisposição a associar o ri-
tual Vodu ao assassinato de Jessica por Wes
assumindo que este estivesse sob o domínio
do feiticeiro.
Entretanto o filme apresenta evidências
sólidas tanto a favor do ceticismo quando à
favor da entrega à feitiçaria. Sim, na situação
1 ouvimos o forte e característico batucar
dos tambores oriundos do Houmfort, assim
como vemos Jessica andar em direção ao
portão. Mas o filme já nos mostrou que essas
situações são recorrentes. O áudio sempre é
permeado do batucar que poderia implicar
que ao mesmo tempo estivesse se realizando
um ritual Vodu, e, no entanto jamais insi-
nua-se sua influência sobre fatores externos
aos limites do Houmfort. O deambular de
Jessica também assumiu-se estar intrínseco
à condição vegetativa da personagem. Essas
situações mantiveram a mesma intensidade
ao longo de todo o filme, são atribuídas à
inércia da própria obra.
Por outro lado, a situação que é agravan-
te e se encontra em espiral descendente é o
alcoolismo de Wes, seus familiares reconhe-
cem que é um problema que veio aumentan-
do e isso está implicado nessa cena desde o
início quando vemos Wes ao lado da garrafa
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de uísque. Além do mais, ele se recusa a en-
tregar o cadáver de Jessica para o guardião
Carrefour. Se ele matou por influência so-
brenatural do vodu ou por influência mate-
rial do uísque somada à resignação moral
que está enfrentando é a problemática com a
qual lidaremos por meio de mais uma citação
de Bazin, desta vez a máxima de seu artigo
Montagem proibida, “Quando o essencial de
um acontecimento depende de uma presença
simultânea de dois ou mais fatores de ação, a
montagem fica proibida”.
Se partirmos desse conceito miran-
do uma compreensão da real extensão dos
eventos na sequência descrita anteriormente
poderá se chegar a conclusão de que a mon-
tagem nesta sequência é quase uma parte
complementar ao conceito de Bazin, pois
o paralelismo acaba assumindo efeito não
elucidativo, mas problematizador, em total
coerência com o que nos foi apresentado no
filme até então. A sensação de “sobrenatu-
ral” floresce não do vodu, mas do potencial
de prolongamento do que a montagem ocul-
ta. A contrapartida à essa questão evidente
em A Morta-Viva, portanto seria algo como:
Quando o essencial de um acontecimento
entre dois ou mais fatores de ação depende
da supressão de uma presença simultânea, a
montagem é necessária.
Com todo seu refinamento em prol da
síntese na encenação e na montagem, os fil-
mes de Jacques Tourneur encontram pleni-
tude ao se relacionar com o embrutecimento
do sentimento de medo em relação à inflexí-
vel presença da escuridão. Em entrevista a
Peter Bogdanovich, Howard Hawks diz: “Se
você não mostrar, o público não reconhecerá
a geografia do lugar. Se você não exibir, ela
se tornará aquilo que você quiser”.
O fato é que com Tourneur esse ele-
mento não é realmente uma escolha já que
frequentemente a geografia é tão mergulha-
da no breu quanto possível, o espectador