Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 64
filme que se encontra durante seu tempo de
produção e fruição, num misto de controle e
surpresa, ordem e acaso.
Outra diferença, não só em relação às
séries, mas também a qualquer obra (falan-
do especialmente das cinematográficas) que
retrate o período é uma sensação, que não
chega a ser desagradável, de solidão que sen-
timos ao ver o filme. Tanto Kevin Arnold,
quanto Harry Potter, ou ainda os amigos de
Garotos de Fengkuei (Feng Gui Lai de Ren,
1983), de Hou Hsiao-Hsien, e de A Brighter
Summer Day (Gu Ling Jie Shao Nian Sha
Ren Shi Jian, 1992), de Edward Yang, viven-
ciam um crescimento não só seu, mas tam-
bém o de amigos próximos, num processo
coletivo, em que suas angústias e felicidades
são compartilhadas. Mason não está desloca-
do do mundo, muito pelo contrário, participa
dele. Porém, é Linklater que o decalca e o
evidencia. Daí vir o fato do filme não poder
ser um diário, é quase um estudo antropoló-
gico, mas um que não tira conclusões, só nos
faz perceber novas dúvidas. Linklater nunca
larga Mason, sua câmera o segue a todo lu-
gar. É essa decisão que causa desespero no
momento mais tenso do filme em que a mãe
abandona Mason e a irmã para ir buscar aju-
da, deixando-os a sós com o padrasto abusi-
vo, ou quando entrevemos a mãe no chão da
garagem, logo após ter sido espancada pelo
marido. Não nos é possível nos afastar desse
magnético personagem principal, mas tam-
bém nunca chegamos completamente nele.
Um mundo sem magia, como responde o pai
a uma pergunta de Mason, só pode ser um
mundo em que estamos invariavelmente sós,
mesmo que rodeados de pessoas.
É também incontornável a frase final do
filme. Depois de Mason observar a vida em
toda a sua decepção (mais uma vez Ozu),
quando sua mãe reclama aos prantos para
ele que não pode ser só isso, ele passa para
um novo estágio de sua vida, misterioso e
cheio de possibilidades. Convidado por seu
roomate para uma caminhada por entre be-
líssimas construções rochosas, ele se senta
e conversa com uma garota que acabou de
entrar na sua vida como tantas outras pes-
soas. Ela diz que acha que a questão não é
você “aproveitar o momento” e sim que o
“momento aproveita” você. É um dos finais
mais esperançosos que já vi, não para a hu-
manidade, ou mesmo só para a juventude
(como em Hughes), mas para aquele menino
em vias de se tornar um homem, de quem
acompanhamos relances de sua vida até
então. O momento em que vemos alguém
acreditar que, sim, existe magia no mundo.
As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw
Brief Glimpses Of Beauty. Presenciamos o
primeiro glimpse of beaty de Mason. E isso
é o suficiente.
AS ATRIZES
LORELEI LINKLATER E PATRICIA ARQUETTE
(COPYRIGHT: UNITED INTERNATIONAL PICTURES)