Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 63

O TEMPO sempre foi o tema central da carreira de Richard Linklater. Em Slacker (1991) víamos pessoas a deambular pela cidade, uma após a outra, num exercício si- milar ao de Alan Clarke (que depois seria re- trabalhado por Gus Van Sant) em que o tem- po definia não só a duração do filme, mas a própria essência daqueles personagens (os slackers, aqueles que não fazem nada, que perdem seu tempo). A seguir em sua carrei- ra abriu-se outra portal temporal: a (por en- quanto) trilogia dos Antes, primeiro amanhe- cer, depois pôr do sol e por fim meia noite. A ideia é acompanhar um casal que se conhece por acaso num trem e percorrer não o espaço que eles habitam, mas o tempo do qual eles se servem, pois nesses filmes é ele quem dá o compasso das emoções, que se faz apai- xonar, que dinamita os corpos, recriando-os para melhor registrar a duração do amor. Nada menos surpreendente, portanto, que a produção desse novo filme, Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014). Digo produção porque qualquer menção a essa obra não pode ocorrer sem que se tenha em mente a forma como o filme veio a ser. Produzido num período de 12 anos, a câmera de Linklater acompanhou a vida de um ga- roto dos 6 aos 18 anos, da entrada na escola à saída, período fundamental do desenvolvi- mento humano, mas ainda sem constar nele o amadurecimento total, tempo de descober- tas e dúvidas que permanecerão sem respos- ta. Acompanharemos o crescimento (em to- dos os sentidos) de Mason (interpretado por um novo mestre do olhar, Ellar Coltrane) e as pessoas que o rodeiam. Sua mãe, perso- nagem magnífico de Patricia Arquette, é a base fundamental da família, seu pai, clichê da figura ausente e cool, e sua irmã, que ser- ve como um contraponto temperamental de 62 Mason. Construindo cuidadosamente esse dispositivo (palavra prostituta hoje, mas que aqui cabe perfeitamente) Linklater pinta um quadro de um período da vida de alguém. Mas e a pintura em si, quais são suas formas e suas cores? O impacto da primeira visita a Boyhood faz-nos pensar nas outras tentativas de retra- to temporal da vida de um ser humano. Me vem à mente duas produções, uma pra TV, outra pra literatura (adaptada para o cine- ma). Em Anos Incríveis (The Wonder Years, 1988-1993) vemos um grupo de amigos, centrado no personagem de Kevin Arnold, passar seus anos escolares até a formatura. Na série Harry Potter (não por acaso refe- renciada em Boyhood) temos basicamente a mesma estrutura, com a diferença que se junta a ela a aventura mágica, os perigos e o deslumbramento de um mundo impossível. Em ambos os casos tem-se uma amplitude de obra gigantesca (um é uma série com 115 episódios, o outro uma série de 7 livros adaptados em 8 filmes), o que já os diferen- cia enormemente de Boyhood, que mesmo sendo um filme grande (2h45m), torna-se minúsculo em comparação. Se no caso das séries o desenvolvimento é notado de manei- ras muitas vezes imperceptíveis, onde pare- cemos crescer junto com os personagens (e em muitos casos isso se fez verdade), Mason parece crescer aos trancos, cada corte em que vemos uma pessoa diferente de momen- tos anteriores vem de maneira abrupta, quase violenta, nos assustamos com sua altura, suas roupas, suas ideias. Talvez a única coisa que se sustente seja o olhar, sempre observador, perscrutador, descobridor. É um filme que, se me desculparem o exagero, assemelha-se mais às obras de Jonas Mekas, seus diários, em que corremos pela vida de um homem de uma maneira alucinante. Mas sem o afe- to de Mekas, afinal Boyhood também não se trata de um diário. Ele também não navega nas águas selvagens do documentário. É um NAS PÁGINAS ANTERIORES, FOTOS DO ATOR ELLAR COLTRANE (COPYRIGHT: UNITED INTERNATIONAL PICTURES)