Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 44

e do Risco (Porky’s, 1982), de Bob Clark, ou O Último Americano Virgem (The Last American Virgin, 1982), de Boaz Davidson, cabeça do humorístico contraponto ao drama central. Quando Em oferece carona a James, Frigo se despede com seu tradicional golpe. Ao ser indagado sobre o significado daquilo, James responde: “É só a minha vida” num momento de constrangedora honestidade. A cena que se segue, a primeira no car- ro de Em, é uma das passagens mais hu- manas do filme. A construção em campo/ contracampo revela o interesse mútuo dos protagonistas, precisamente quando eles pretendem escondê-lo. Um deseja olhar di- retamente o outro, mas não quer que este olhar seja percebido. Este jogo é marcado pela música (diegética) Don’t Wanna Know if You Are Lonely (Não Quero Saber se Você Está Sozinha) da banda indie HuskerDü. É importante saber que a história se passa nos anos 80, mas em retrospecto sua sensibilida- de é muito mais pré-grunge que pós-punk. Em resposta à crise da ideologia, à ascensão esmagadora do consumismo e à cultura yup- pie, a música grunge foi a reação niilista da juventude americana à era Bush (pai) e seu sistema hipócrita e sanguinário. Sua icono- grafia suicida influenciou a percepção de Mottola, que diferente de seu ídolo Hughes – o sonhador esperançoso de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) –, observa a juventude deste tempo como as grandes vítimas do desencanto. JUNTOS (21’21” – 21’48”) O grande mestre da mise-en-scène clás- sica, John Ford trabalhava suas narrativas em duas dimensões básicas: a história do texto e a história das imagens. Como rara- mente tinha controle sobre seus roteiros, Ford enchia suas imagens de profundidade, às vezes em harmonia, às vezes divergindo do que era diretamente enunciado pelos diá- logos. O locus privilegiado de sua expressão eram os olhares, sempre sutis, mas emocio- nalmente significativos. Grande parte da poesia do cinema clás- sico atual (Michael Mann, Clint Eastwood, James Gray) reside exatamente nestes rac- cords de olhar, e Greg Mottola, privilegian- do o campo/contracampo, filia-se a esta tradição. Na cena da festa, em meio a uma conversa banal, Em convida os personagens a pular na piscina. A decupagem e os enqua- dramentos ressignificam a frase: Em convi- da James a pular na piscina, num momento de absoluta sintonia entre os protagonistas. PALE BLUE EYES (33’38” – 34’43”) O encantamento obsessivo provocado pela força icônica da mulher era uma das grandes questões do cinema para o diretor Alfred Hitchcock. Mottola inicia uma in- teração com o mestre na segunda cena do carro de Em. Aqui a decupagem é similar à da primeira, mas a mise-en-scène revela o desequilíbrio nas atitudes dos personagens, substituindo a aventura da sedução por um silêncio sombrio. Ao som de Pale Blue Eyes, de Lou Reed, James observa a taciturna Em com uma ex- pressão que revela seu amor. Como na pri- meira cena do filme o ato de ver é também ser visto e a entrega de James não é corres- pondida, representando uma curva em sua trajetória. Em permanece indiferente, perdi- da em seu próprio abismo. O que ela e nós sabemos, e James ignora, é que este romance é uma encenação: Em tem um caso com um 43