Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 43
O HOMEM QUE OLHA
(50” – 1’41”)
Férias Frustradas de Verão é a histó-
ria do amadurecimento de um olhar e em
função disto, o procedimento de campo/
contracampo na decupagem é sempre muito
significativo. Recurso básico da narração no
cinema clássico o corte através da ordenação
de planos no esquema campo/contracampo
(observador/coisa observada) é fundamen-
tal para a organização espacial e dramática
nas cenas. Neste sentido o primeiro plano do
filme (apresentação do protagonista, James
Brennan) é determinante: um lento trav-
elling fecha um close na expressão aboba-
lhada do personagem, que olha para alguém
fora de quadro. Com o corte, o contracampo:
uma bela moça que olhava para o outro lado,
ignorando o olhar apaixonado de James, se
surpreende com o seu chamado. Este sim-
ples fragmento revela o descompasso dos
sentimentos nos personagens: o olhar de
James não é retribuído e eles não frequen-
tam o mesmo quadro (o campo/contracampo
aqui acentua a separação entre eles). Não
será esta a “garota dos sonhos” do herói.
O OLHAR QUE DERRUBA
(12’31” – 13’28”)
James começa a trabalhar no parque de di-
versões Adventureland iniciando aquele
que será o “melhor pior verão de sua vida”,
o que circunscreve o filme num prazo bem
específico. O filme e seus personagens são
colagens/releituras de vários códigos das
42
comédias high school americanas, sucesso
nos anos 80 e que no Brasil dos 90 ganharam
popularmente o epíteto de filmes “Sessão da
Tarde”.
Após as instruções de seus patrões Bob-
by e Paulette – figuras extraídas de filmes
de acampamento, como Almondegas (Meat-
balls, 1979) de Ivan Reitman –, James de-
senvolve uma atrapalhada encenação no
jogo dos cavalinhos, emulando a narração
das corridas de jóquei. A ideia de encenação
(falso/verdadeiro) é central no filme, sendo
o próprio parque seu maior símbolo. Esta
reapresentação do personagem se desenro-
la para o olhar de Em, a “princesa do papai
problemática”, arquetípica das comédias
de John Hughes – Gatinhas e Gatões (Six-
teen Candles, 1984), Clube dos Cinco (The
Breakfast Club, 1985). Não à toa a heroína é
interpretada pelo ícone teen dos nossos tem-
pos, Kristen Stewart, da saga Crepúsculo
(Twilight). A imagem da atriz/personagem e
sua beleza cinematograficamente composta
são tão impactantes, nesta que é a sua pri-
meira aparição no filme, que literalmente
derruba o protagonista. A queda é articula-
da na ideia geral de causalidade que rege a
sequência: no meio da encenação de James,
Em extrai/representa a verdade. Uma verda-
de constrangedora, mas superior à fábula.
DON’T WANNA KNOW
IF YOU ARE LONELY
(16’38” – 17’45”)
Férias Frustradas de Verão é uma ope-
ração simbólica e de todos os seus signos ne-
nhum é mais forte que os socos nos testículos
que James recebe do seu vizinho Frigo – per-
sonagem arquetípico das pornochanchadas
americanas, como Porky’s: A Casa do Amor