Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 107

da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw Massacre 2, 1986), se envolvem mais direta- mente e intimamente com as forças sinistras que as cercam, Stretch chega mesmo a assu- mir a postura de Letherface, reproduzindo a dança macabra que encerra o primeiro filme da franquia. Eis o ponto que mais desolador a que chegam as personagens e a visão de Hooper, a maior tragédia talvez não seja ser destruído pelo mal, mas ser cúmplice dele, corromper-se aos poucos e tornar-se agente dele da mesma maneira que os “monstros” e “assassinos” que a heroína temia no começo dos filmes. Enfim, há a Sherry Quelette (Vanessa Pike), de Mangler: O Grito de Terror (The Mangler, 1995), que deverá ser sacrificada para a continuidade do pacto que seu tio mantém com a máquina que o domina. Isso quase acontece e, após um confronto, a má- quina parece ser destruída. Qual não é a nos- sa surpresa (e a do protagonista, vivido por Ted Levine, que a ajuda a escapar da máqui- na) quando descobrimos que ela não estava rompendo, mas compactuando com aquele meio decrépito (cedendo inclusive uma par- te de si para selar o pacto), revertendo assim completamente sua postura, que é demons- trada por Hooper através de dois planos em- blemáticos de seu estilo de encenação. Antes, vítima e explorada pelo meio, Sherry é uma mera funcionária da lavande- ria do tio. O plano de grua que abre o filme parte do capataz gritando ordens na parte de cima da fábrica, em um movimento de câ- mera descendente a máquina e suas engrena- gens nos são apresentadas e por fim, em um discreto plongé, vemos Sherry empurrando um carrinho com lençóis sujos. Alguns pla- nos depois, a figura sinistra do tio de Sherry aparece acima das escadas. Uma escala hie- rárquica brutal e cruel. Depois, ela se torna a exploradora em troca de autopreservação, seu tio não conse- guiu cumprir com sua “obrigação” de ofere- cê-la de oferenda para a máquina e foi con- sumido por ela. Sherry assume seu lugar, sua corrupção é selada com a perda de um dedo e o plano que revela isso é uma grua que faz o movimento inverso do começo do filme. Ela parte do rosto de Ted Levine (o policial que tentou ajudá-la), mostrando todos os traba- lhadores ao redor da máquina em um ângulo ligeiramente alto e finalmente alcançando-a no alto das escadas, no mesmo lugar que an- tes o tio ocupara, plano emblemático do pa- pel trágico da final girl Hooperiana, ocupar o lugar que antes pertencia aos “monstros”. 106