Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Página 106
TOBE HOOPER sempre perseguiu sua
obsessão de construir uma experiência es-
tética renovada, para isso elege um gênero,
o horror, com o qual flerta timidamente em
seu primeiro longa, Eggshells (1969), para
depois deslanchar em uma carreira onde
a apropriação e compreensão do gênero é
sempre transmutada para sua visão ímpar de
mundo e representação do horror.
Com isso em mente, há de se chegar a
comparações entre os filmes de Hopper e
o objeto dentro do horror que lhe interessa
estudar. Há dentro do horror o subgênero
Slasher, onde tradicionalmente os enredos
giram em torno de assassinos inumanos que
perseguem avidamente suas vítimas, dentre
elas encontra-se a final girl, personagem vir-
tuosa que será, como a designação sugere,
a última vítima a sucumbir ao perseguidor
ou mesmo a única sobreviver ao final. Em
seu trabalho que mais se aproxima de ser um
filme de gênero tradicional (digo isso com
muitas ressalvas), Massacre da Serra Elétri-
ca (The Texas Chain Saw Massacre, 1974),
a final girl Sally Hardesty (Marilyn Burns)
é a única de seu grupo que sobrevive a um
ataque de Leatherface e consegue sair viva
da casa da família, mesmo que coberta de
sangue e tendo de observar a estranha dança
do antagonista, ficando claro a seu compro-
metimento com aquele espaço e sua reação
agressiva contra qualquer força estranha que
tente profaná-lo. A razão de ver neste filme
um contato com as tradições do gênero está
na aproximação da figura de Leatherface
com o assassino tradicional do Slasher e
pela figura da final girl que sobrevive ame-
drontada.
Já nesse filme, Hooper deixa bem clara
sua abordagem fundamentalmente diferente
do mal retratado pelo gênero, não se tratam,
como nos Slashers, de figuras que encarnam
o mal, mas de figuras tragadas por esse mal
e impelidas a agir por influência deste que se
encontra nos espaços que estes “assassinos”
habitam, é aí que reside sua grande diferença
de postura e a evidência mais clara disto se
vê na trajetória trágica do que chamaremos
de final girl Hopperiana.
Estando o mal em Hopper contido nos
espaços, os embates dos filmes serão tra-
vados não entre Assassino e final girl, mas
entre o espaço e seus agentes (figuras que
lembram os assassinos de Slasher, mas não
passam de marionetes) contra a final girl.
A postura destas personagens ao longo dos
filmes de Hopper apresenta certa progres-
são rumo ao caos e a descrença completa
de redenção daquele meio, culminando em
um estranho flerte da final girl Hopperiana
por eles.
Em Pague Para Entrar, Reze Para Sair
(The Funhouse,1981) a personagem Amy
Harper (Elizabeth Berridge) estabelece des-
de sua chegada ao parque um atento estudo
das atrações que a rodeiam, em alguns mo-
mentos ela concentra-se em observar aqui-
lo que seus colegas ignoram. Mais à frente,
quando todos os demais estão mortos e ela
se vê encurralada pelo monstro já dentro
das engrenagens da Funhouse, é novamente
através de um minucioso estudo dos “meca-
nismos” daquele lugar maldito, começando
a compreender, o que lhe possibilita sacri-
ficar o monstro no seu lugar. Ao final, após
sair da casa, vemos uma final girl completa-
mente exaurida tendo de observar o triunfo
daquele espaço, que a caçoa (o boneco da
mulher gorda em frente ao brinquedo gar-
galha). Essa espécie de cumplicidade com
o mal será levada ao extremo ao longo da
carreira de Hooper.
Lisa (Cynthia Bain), em Combustão Es-
pontânea (Spontaneous Combustion, 1990),
e Stretch (Caroline Williams), em Massacre
NA PÁGINA ANTERIOR, AS FINAL GIRLS: ELIZABETH BERRIDGE (THE FUNHOUSE, 1981), CAROLINE WILLIAMS (THE TEXAS
CHAINSAW MASSACRE 2, 1986) E MARILYN BURNS (THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE, 1974)
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