Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Página 85
Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo
erodem as velhas formas de solidariedade e põem em termos
novos o problema da sociedade e de sua estabilidade.
A fraternidade como princípio do agir prático, ético e polí-
tico dos homens é a grande questão da modernidade, assinalada
pelo desaparecimento do modelo orgânico de sociedade, soli-
dária e estável em suas hierarquias e em seus valores, e cuja força
de integração não é mais constituída pela religião.
Não é uma unidade originária que sustenta e consolida as
relações, mas a ação racional de indivíduos, cuja diversidade é
fonte de conflituosidade e antagonismo e que, no entanto, estão
vinculados ao sistema de relações que estruturam a empresa-
-sociedade, em cujo âmbito cada qual reclama ser reconhecido
não como filho de Deus, mas como socius, indivíduo indepen-
dente, fim em si com os mesmos direitos de liberdade e igual-
dade no campo da cooperação social.
A teoria kantiana da insociável sociabilidade amadurece no
terreno das transformações modernas. A ideia de fraternidade,
que dela se origina como imperativo e como constructo da razão,
inscreve-se por inteiro no horizonte da Bildung moderna, a
única que, para Kant, prepara as condições nas quais o homem,
“vencedor das necessidades” à Bacon, pode pretender ser fim em
si mesmo e entrar “no estado de igualdade de todos os seres
razoáveis, seja qual for sua condição”:
Quando disse à ovelha pela primeira vez: ‘a lã que trazes não
foi dada a ti pela natureza, mas a mim’, quando despiu a
ovelha e se vestiu com sua lã (Gênesis 3, 21), reconheceu ter
por natureza, acima de todos os animais, o privilégio de não
mais considerar os animais como seus companheiros na
criação, mas como meios e instrumentos abandonados pela
natureza a seu arbítrio para que deles se servisse segundo
suas finalidades. Esta ideia também implicava, ainda que
confusamente, a proposição oposta: que não poderia dirigir
esta linguagem a outro homem, mas devia considerá-lo como
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