Maria Rosaria Manieri
Realizar no mundo a fraternidade humana e construir a civitas terrena são as finalidades próprias da ação dos homens.
Na perspectiva moderna, pois, a fraternidade assinala um pertencimento, o dos homens à grande família do gênero humano, e um escopo, o do progresso da humanidade para melhor.
Na base do novo significado estão as ideias de razão, comum a todos os homens, e de progresso, de que os homens são os construtores em seu caminho histórico.
A razão permite a indivíduos distintos, dotados de interesses, necessidades, habilidades, princípios e ideias diferentes, reconhecerem-se como agentes morais, livres e iguais no quadro de relações cuja força e grau de integração são determinados pela“ consciência de uma sujeição livre da vontade à lei”. 1
O que sustenta e consolida as relações entre os homens, na moderna sociedade secularizada, não é mais a religião, mas a ação racional de indivíduos, cuja diversidade é fonte de conflitos e antagonismos e que, no entanto, estão vinculados ao sistema de relações que estruturam a empresa-sociedade, em cujo âmbito cada qual requer ser reconhecido não como filho de Deus, mas como socius, indivíduo independente, fim em si com os mesmos direitos de liberdade e de igualdade no plano da cooperação social.
Neste contexto, a fraternidade assume dimensão nova até constituir o verdadeiro teste de uma modernidade marcada pelo declínio do velho modelo orgânico de sociedade, solidária e estável em suas hierarquias e em seus valores. Não mais só ideal de aperfeiçoamento moral, ela se abre à política e ambiciona inspirar o projeto de sociedade nova, cujas pilastras são a liberdade, a finalidade humana das ações dos homens, a igualdade e a universalidade. 2
1 I. Kant, Critica della ragion pratica, Roma-Bari, Laterza, 1997, p. 175. 2 T. Todorov, Lo spirito dell’ illuminismo, Milão, Garzanti, 2007, p. 10.
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