Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo FRATERNIDADE_MANIERI | Page 114

Maria Rosaria Manieri
fato – como afirma Eric Hobsbawm – de que“ o marxismo foi uma referência cultural importante do mundo moderno”. 3
Ele representa um dos componentes constitutivos da identidade da Europa e do Ocidente moderno.
Na verdade, quem celebra a queda dos socialismos reais como a vitória da liberdade sobre o totalitarismo e a demonstração da superioridade do capitalismo faz deste fato histórico – adverte Franco Cassano – uma leitura parcial. O colapso do socialismo real representa não a vitória do Ocidente contra seu outro, mas a exaustão de uma longa tensão dialética entre dois polos, ambos no interior da tradição ocidental, o da liberdade e o da igualdade ou, se se quiser, o do mercado e o do Estado. 4 O Ocidente produziu não só um pensamento apologético da modernidade, mas também um pensamento crítico capaz de dar vida a uma forma radical de universalismo, baseada na luta contra as desigualdades em escala nacional e mundial. Deste pensamento Marx é, por certo, o representante mais influente.
O silenciamento da dialética histórica entre liberdade e igualdade, entre mercado e Estado, que caracterizou o desenvolvimento do Ocidente moderno, associado ao eclipse do pensamento crítico e ao advento do pensamento único coincidiram com o que Fukuyama definiu como“ o fim da história”, 5 ou seja, a vitória incontrastada do liberismo político e econômico, a expansão da apologia do capitalismo livre até dos vínculos do welfare, o fundamentalismo de mercado. A fase atual do mundo recoloca tudo isso em discussão.
Se os marxistas, com o evidente fracasso do socialismo real, restaram órfãos de sua alternativa ao capitalismo, os
3 Idem, p. 12. 4 F. Cassano, Un altro Occidente. Riflessioni sull’ Europa, Jura Gentium, 1, 2005, p. 1. 5 F. Fukuyama, La fine della storia e l’ ultimo uomo, Milão, Rizzoli, 1992.
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