Então , como um chamamento , ela encarou o marido no sofá , o copo em cima da mesa , junto ao cinzeiro imundo , a paisagem da sala por inteiro , como uma novidade , e considerou que era verdade , a escritora tinha razão . Ela , como outras , era de uma raça diferente . E não era a mãe . Nunca seria a mãe . O seu molde é outro , com algumas semelhanças , como as peças de porcelana com defeito , mas diferente . Não se importa . Não tem de aguentar nada . Sem fúria , já calma nos seus ímpetos de fuga , suspirou e repetiu a frase da senhora do xaile . Como uma oração aprendida de pequenina , um ritual , uma lengalenga , um conforto . Optou por deixar o marido no sofá comido pelo tempo , um sofá com vagos desenhos de cornucópias , verde , vermelho , amarelo torrado . Olhou-o no seu esplendor miserável uma única vez e apagou a televisão . Por instantes , pareceu que a sua saída era para sempre , como se se tivesse diluído no ar , transparente . Como se fosse mudar de vida só por ter decidido não carregar o marido embriagado para a cama de casal , ali mesmo , ao fundo do corredor . No quarto , fez a cama de lavado , lençóis brancos de algodão puro , suaves e menineiros . Tudo esticado , impecável , sem rugas ou imperfeições . Admirou com calma a obra feita e começou a tirar a roupa : a bata da cozinha de um vermelho acossado , um vestido verde com flores que tinha sido da prima Blica noutros tempos , o soutien bege cor de carne , as cuecas altas , os sapatos pretos de andar por casa , sapatos de enfiar , de andar por casa , as mini meias de mousse até ao joelho . Deixou as mãos percorrerem o corpo e não se importou com a janela escancarada , com os estores por correr . Havia uma brisa ligeira . As mãos tocaram os seios com suavidade , os mamilos rijos , movimentos circulares . Depois a mão direita no sexo suave , os dedos dentro de si , dois dedos apenas , entrar e sair , os olhos cerrados . Aguentou o orgasmo sem emitir um ruído , o corpo dobrou-se involuntário na direcção da cama . Retirou a mão e cheirou-se . Longamente . Sem vergonha . Deitou-se então nua no calor da noite .
No centro da cama fez de estrela do mar : abriu as pernas , estendendo os pés , as pontas dos pés a querer chegar à parede ; os braços abertos em tensão , na posição de Cristo . Olhou o candeeiro de vidrinhos verdes no tecto , a penumbra do quarto toda multiplicada em minúsculos formatos de vidro . As sombras a brincar num casamento com as poucas luzes da rua . Sentiu-se dentro de uma cápsula protectora , fora do seu mundo , sem medo . Repetiu alto a frase de Agustina Bessa-Luís sobre as mulheres pequenas e a diferença .