Ewe O conto das Folhas Sagradas Livro Ewe o conto das folhas | Page 47

portanto não podemos mais dizer que somos descendentes de escravos, pois esta condição foi imposta para as tradições dos reinos de África.
É querer entender a circuferência e a raíz forte do Baobá, como símbolo de nossa ancestralidade, e saber que podemos e devemos, tê-la como resistência e fortaleza para atingirmos os nossos ideiais de um país mais justo e não racista. Suas vitaminas e minerais devem fazer parte da vigorozidade de sermos fortalecidos diante de nossas histórias ancestrais, pois muitas pestes foram curadas com seus troncos, caules e folhas, como a malária.
É saber que nossos jovens terão caminhos, exercitarão as lembrança de onde vieram, como estão e para onde irão diante da Copa do Baobá, que mais parece as raízes desta grande árvore, levando a caminhos variados de direitos. O direito do povo brasileiro de ser descendentes de África e poder viver aqui com toda a culturalidade, religiosidade de seus ancestrais, num país laico, que não exercerce este fato, e sim maltrata tudo o que não é Cristão.
Se puder querer, quero que o baobá seja a centralidade, continuidade e circularidade deste projeto que é a socialização de nossa cultura, dentro das folhas que são sagradas na religiosidade, mas, é de fato uma medicina terapêutica e alternativa para nós que muitas vezes recorremos a elas, não por não ter oportunidades, mas para exercermos a ancestralidade e socializar as nossas culturas diante da dificuldade do dia. É fazer uso da memória milenar de nosso antepassados valorizando a palavra, a oralidade e poder passar para as crianças estas memórias, como numa cantiga de roda entoada pelos seus avós, que foi ensinada a eles pelos seus bisavós, que foram ensinados a estes pelos seus tataravós. Fazendo assim circular a história cognitiva de um grupo, onde em um momento esta acima e em outro esta abaixo, mas esta lá se fazendo presente nas cantigas entoadas as crianças que tudo aprendem e que se não estimula esquecem e se vêem abraçadas pelas forças sociais urbanas.
Não quero aqui dizer que esta força seja ruim, mas faz com que a memória ancestral tenha um lugar muito longe da realidade vivida neste século, e esta criança se torne um jovem que não queira valorizar seus principios devido ao preconceito, racismo, intolerância, assédios e valores contra a sua condição de etnia e se venda a covardia do padrão moralista e perseguidor da sociedade atual. Por este motivo acredito que tenhamos que insentivar os grandes líderes, cientistas, arquitetos, artistas negros e negras de nosso país para manter viva a nossa história.
Sejamos o Baobá, caminhemos, vamos construir um círculo novo de ideias e direitos para termos continuidade nesses contos sagrados e culturais, a partir de nossos antecedentes e também a posteriori, pois tenho certeza que o baobá resistirá à nossa existência e contará que temos um grupo compromissado em continuar a história ancestral da diáspora africana.
Hoje temos plantado e tombado o primeiro baobá em Lins de frente com a universidade de Lins, onde plantamos a ideia de continuidade, ancestralidade e circularidade. Antecedências de tudo que relatei nestes capítulos e foi acolhida pelos universitários e seu reitor, para que possamos de fato fazer a história concreta em garantir a continuidade de nossas tradições.
Em sua cicurferência um diâmetro de sete metros aproximadamente, é a relevância de sermos muitos de mãos dadas para cincundá-la, e a sua magnitude é a copa cheia de ramas, mostrando como é profunda as suas raízes e fortes para nos olhar além desta vida, pois se bem semeada, bons frutos trará a terra e retornará, retornará, retornará...
E estará lá com suas Ewé: fazendo o conto das folhas sagradas...
Axé! Adupé Iewô Olorun!*
Iyá Cristina d’ Osun
* Axé = força adupéIewô Olorun = Graças a Deus por ter conservado 47 minha vida e a minha saúde até hoje.