a renda, não passa nem de perto da
realidade de Tânia. Fazendeira, dona
de propriedade herdeira dos pais, ela
prepara e vende salgados e doces pelo
simples fato de fazer as pessoas consumir
algo que é fruto do trabalho sobre o qual
dedica algumas horas do dia.
Quem vê o jeito jovial e despojado
de Tânia não consegue imaginar sua
história de vida. Ao falar sobre o passado,
substituiu a expressão de euforia por
algumas lágrimas. As palavras saem com
difi culdades, quase inaudíveis. A morte
recente dos dois irmãos continua sendo
um tema árduo que ela tenta esconder
diariamente por trás dos sorrisos e
brincadeiras.
Ela se lembra da adolescência, do período
que sentia rejeição da mãe. Por causa
disso decidiu fugir com o namorado
para o Pará, onde ele tinha uma fazenda
e estava construindo uma casa. Lá eles
fi caram 15 dias vivendo em um avião,
no meio da mata, tomando banho em
rio e se alimentando de animais que
os funcionários da fazenda caçavam e
assavam para comer. Com ele casou-se
e teve três fi lhos. Ela está viúva há dez
anos.
As lembranças das loucuras vividas na
infância e juventude devolve-lhe o sorriso
no rosto. Os olhos voltam a brilhar e
ela conta sobre o livro infantil que está
escrevendo sobre as histórias de quando
era criança. São tantas lembranças que
foram impossíveis de ser ditas naquele
momento.
(Foto: Cary Bertazzoni)
Quando criança, ela morou com os
pais e dois irmãos em uma fazenda no
Eu tenho: Histórias
195