Ed. 320 - completa Setembro / Outubro - 2020 | Seite 82

OPINIÃO Colunista Tempos de escolhas difíceis: o que é fazer a coisa certa? Toda escolha pressupõe renúncia, seja no plano individual ou coletivo. Abdicar implica abster-se de algo que nos causa prazer, é conveniente ou apenas nos acostumamos a ter. Em sociedade, muitas escolhas privilegiam alguns em detrimento de outros, sem que se consiga definir, prévia e indiscutivelmente, a aceitabilidade delas. Como propõe Michael Sandel em seu livro, cujo título deste texto se inspira, pense na seguinte hipótese: há um trem desgovernado, com cinco tripulantes a bordo, cujo destino provável é a morte de todos, exceto se houver a alteração dos trilhos e mudança de rota. Porém, tal medida, tem por consequência a morte de Marciano Buffon pós-Doutor, professor da Unisinos marciano@buffonefurlan.com.br outra pessoa. Preservar a vida de cinco, sacrificando a de uma pessoa seria uma escolha justa? E se esta fosse seu familiar ou um cientista que viria a descobrir a cura do câncer? No entanto, a questão parece ser um pouco diferente e, talvez, menos complexa. Até que ponto estamos dispostos a renunciar, não tendo em contrapartida os benefícios diretos da escolha? Ou, em outros termos, o quanto estamos predispostos a “abrir mão” de algo, sem nada a usufruir diretamente? Ainda, concordamos sacrificar prazeres, benefícios, liberdades e posses, em prol do bem da coletividade - nem sempre identificável e sem um rosto? Se a resposta for sim, até que ponto estamos dispostos a fazê-lo? Há escolhas que não carregam um grau de dúvida maior e são humanamente compreensíveis. A própria vida, ou a vida de quem amamos, quando exposta ao risco de ser tolhida, pode ser defendida, não obstante isso implique o fim da vida alheia. Ao longo da história, invariavelmente, este preceito foi legal e moralmente justificável. Porém, não se trata disso. O que está em discussão é o seguinte: estamos dispostos a sacrificar, por exemplo, o nosso direito à livre circulação, se isso puder reduzir o contágio de uma doença que, em tese, não é letal para nós; apenas para os outros? Admitimos reduzir a renda mensal em prol de outrem que dela necessite? Se a resposta for positiva, qual seria o limite desse sacrifício? Vidas desconhecidas merecem ser protegidas se isso implicar um prejuízo econômico substancial? E se esse prejuízo for de tal monta que resulte, por exemplo, na inviabilidade de um negócio? Por que devemos preservar o ambiente para as futuras gerações, mediante restrições ao nosso modo de viver ou ganho econômico, se não estaremos mais aqui para usufruir disso? Ou, de fato, não estamos dispostos a isso tudo e lutamos, tão somente, pelos nossos interesses, desejos ou pela satisfação de nossas necessidades? Se isso é verdade, o cenário de tal luta seria o lugar mais adequado para consumirmos os dias que nos foram dados a existir? Essas questões todas evocam um debate que, embora não seja novo, é muito atual. Bauman lembrava, em sua “modernidade líquida”, que o indivíduo é o pior inimigo do cidadão. Assim o fez, referindo expressamente Alexis de Tocqueville que, no início dos anos 1830, ao realizar um diagnóstico da América (A Democracia na América) constatara que, não obstante serem os colonos americanos, em média, bem menos cultos que os franceses de então, haviam erigido um país notoriamente próspero. Entre outros aspectos, percebera uma arraigada consciência de comunidade, de tal forma que restara nítido haver uma preocupação com o destino do outro, pois tal forma de agir - dentro de uma comunidade - seria a maneira mais eficaz de se auto proteger. Ou seja, estava introjetado, no inconsciente coletivo, que o infortúnio de um membro da comunidade afetava indireta e negativamente toda ela. Tangenciando a isso, Paul Collier refere, em sua recente obra O Futuro do Capitalismo uma pesquisa a qual constatou que a maior causa de arrependimentos das pessoas não está, por exemplo, em não ter trabalhado com afinco, estudado pouco ou cometido erros em uma entrevista de emprego. Na maioria dos casos, a causa de maior angústia ou dor decorrente do arrependimento é ter deixado de fazer algo que lhe era possível e devido fazer. Isso talvez possa servir como um elemento norteador às dúvidas - existenciais - antes suscitadas. Em alguns aspectos, não se trata de uma resposta fácil, tampouco geradora de prazer e alegria no curto prazo. Todavia, se projetássemos o futuro, perceberíamos que eventuais escolhas as quais privilegiam - muito radicalmente - nossos interesses individuais em detrimento de toda coletividade (no presente ou não) tendem a, de uma maneira pragmática, voltarem-se contra nós ou representarão - no futuro - o arrependimento de que falava Collier. Enfim, seria uma pretensão, impregnada de pedantismo, responder as questões ora levantadas, em relação às quais somos, quase que diariamente, confrontados (sobretudo neste momento). Lembrando Albert Camus, o que se pode dizer, com toda compreensão e generosidade do leitor, é que, muito provavelmente, o temível destino não exista e a vida que temos e haveremos de ter até que a finitude nos alcance nada mais é do que o produto das escolhas passadas, presentes e futuras. Se, de um lado somos livres para fazê-las, somos prisioneiros de suas consequências, como já dissera o inesquecível Pablo Neruda. 82 • setembro | outubro