Dragões #429 Ago 2022 | Seite 13

ENTREVISTA

“ Lembro-me de dizer muitas vezes aos meus amigos , ali durante a pausa da quarentena , que o Corona e o Otávio me deram muitas dores de cabeça e me mostraram o que era o nível seguinte .”

Nessa altura tinha um ídolo chamado LeBron James ? Porquê ele ? Na altura , tal como agora , ele é o melhor . Lembro-me de que o meu pai tinha as cassetes dos jogadores e eu adorava vê-las . Do Shaquille O ' Neal , do Shawn Kemp , do Allen Iverson … Via sempre os mesmos , porque ainda não havia YouTube , mas parecia que estava a vê-los pela primeira vez . Gostava muito .
De onde surgiu a paixão pelo futebol ? Foi na escola , com os meus amigos . Só jogava futebol e fui percebendo que tinha jeito . Na escola não tínhamos tabelas de basquetebol , tínhamos balizas de futebol e para mim era só correr e chutar de pé esquerdo [ risos ].
Já era o mais alto da turma nessa altura ? No início sim . Depois , a meio da adolescência , tive uma fase em que a minha altura era normal , porque tive um crescimento algo atrasado , mas aos 16 anos dei outra vez o salto .
Com essa altura , velocidade e impulsão deve ter jeito para outros desportos …
Jeito como tenho para o futebol nunca terei , porque é preciso treinar . Mas sinto que se fizer agora um 3x3 com os meus amigos não se nota muita diferença , apesar de eles jogarem basquetebol e de jogarem muito . Também gosto muito de voleibol e do desporto em geral .
Começou nos clubes da zona e acabou no Seixal . Porque é que não ficou no Benfica ? Tive um atraso no crescimento e fiquei para trás em termos físicos em relação aos meus colegas . Admito que não estava ao mesmo nível e , se calhar , ter saído de lá foi a melhor coisa que me aconteceu .
Não o deixou muito abalado ? Fiquei nos primeiros meses . Passava lá os dias todos , a minha vida era aquilo , os meus amigos também … Custou-me muito , mas mais pelo lado de fora do futebol . Só que o meu pai nunca me deixou ir abaixo e disse-me que , se eu tivesse de ser jogador , não tinha de ser só ali . Há 1001 clubes e oportunidades , só dependia de mim , e deu-me força para continuar a fazer o meu trabalho .
Foram difíceis esses primeiros tempos longe da família ? Fui sozinho para o Centro de Estágio do Seixal e foi um choque . Miúdos de 11 ou 12 anos pensam em futebol e amigos e aquilo abriu-me os olhos para a importância da família . Liguei muitas vezes para casa a pedir por favor para me irem buscar , quando os dias não corriam tão bem . Mas o meu pai perguntava-me sempre uma última vez quando já estava dentro do carro pronto a arrancar para Lisboa e eu acabava sempre por dizer que não , que não era preciso e que me bastava falar um bocado com eles para que as coisas melhorassem .
Regressado a casa , como se deu a mudança para Braga ? Foi tudo muito rápido e inesperado . Foi um ano muito bom . Eu ainda era um bocado ingénuo e limitava-me a andar pelo futebol … jogava no escalão acima , na Sanjoanense , e isso ajudoume . Não estava nada à espera , aconteceu de um momento para o outro . A faltar um ou dois meses para o fim da época já sabia que ia para o Braga , porque nessa altura não existiam contratos , era tudo por boca , mas foi fluído e rápido .
13 REVISTA DRAGÕES AGOSTO 2022