Dragões #428 Jul 2022 | Page 77

A ROTA DO DRAGÃO
de uma região bem definida e delimitada , e que cumprisse um conjunto de normas e de técnicas durante a sua produção . Ora , para garantir a fiscalização de que tais regras eram cumpridas e também a certificação do vinho produzido , o Marquês do Pombal cria , em 1756 , a poderosíssima Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro , que ficará posteriormente conhecida como Real Companhia Velha . Sediada no Porto , a instituição visava também diminuir a preponderância inglesa na comercialização destes vinhos . Sebastião José de Carvalho e Melo , o Marquês do Pombal , é um homem do seu tempo , associando o seu enorme poder , alicerçado num regime monárquico absolutista , a ideias modernas e científicas do racionalismo iluminista . Enfim … um “ déspota esclarecido ”. Mas é com ele e com a sua “ Companhia Velha ” que nasce a associação do dragão ao Vinho do Porto . Com efeito , e porque , como já explicámos em número anterior da DRAGÕES , este animal mitológico integrava há muito as armas nacionais , e especialmente as da última dinastia - de que fez parte o rei D . José I que decretou a criação da instituição - e porque se tratava de uma “ Real Companhia ”, o dragão surge naturalmente no seu emblema . Há , contudo , uma outra possível explicação para o aparecimento do dragão no logo da “ Real Companhia Velha ”. E tal relacionase com a presença , também neste símbolo , da figura de Santa Marta , famosa padroeira de regiões vinícolas , como é o caso do Douro . Conta a lenda que Marta terá sido a responsável , na famosa zona vinhateira francesa de Tarascon , na Provença , por ir ao encontro de um dragão que vinha aterrorizando a população local , conseguindo amansá-lo . A importância da presença do dragão no símbolo da instituição é devidamente salientada no interessantíssimo “ 17.56 - Museu da Primeira Demarcação ”, que , instalado na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia , nos narra a história da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro . A Confraria do Vinho do Porto é outra importante entidade relacionada com este “ embaixador da cidade ”. E , de igual modo , sobressai no seu emblema a figura de um dragão . Também neste caso , o logo da confraria e a presença no topo deste ser mitológico evocam as velhas e reais armas de Portugal , que procuram assim contribuir para a dignidade da instituição e para a sua representatividade nacional , ilustrando também uma ancestralidade que , em rigor , não possui . É certo que a produção do Vinho do Porto tem já muitos séculos de existência , mas a confraria só foi fundada há quatro décadas . Não anda , no entanto , muito longe da generalidade das organizações congéneres existentes noutras regiões associadas à produção dos melhores vinhos do mundo . Com efeito , entre o final da Segunda
Guerra Mundial e 1965 assistiu-se à formação de múltiplas confrarias deste tipo e , também entre nós , se procurou então ( 1964 ) avançar com tal instituição . As limitações que a Ditadura Nacional impunha na época ao livre associativismo não permitiu , contudo , tal concretização . A democratização do regime e o livre associativismo , decorrentes do 25 de abril de 1974 e da Constituição de 1976 , permitiram finalmente as condições para que , em novembro de 1982 e por escritura pública , nascesse a Confraria do Vinho do Porto que , nos seus primeiros anos de existência teve por sede aquele que é um dos mais “ dragonados ” imóveis da cidade : a sede da Associação Comercial do Porto / Palácio da Bolsa . Reunindo as principais instituições e personalidades ligadas à produção , comercialização e divulgação do Vinho do Porto , a confraria tem como objetivo estatutário principal a comunicação e promoção da reputação mundial do Vinho do Porto , sendo da sua responsabilidade , entre outras , a já emblemática Regata dos Barcos Rabelos , organizada anualmente no dia de São João . Além destes importantes organismos , outras marcas de Vinho do Porto usaram pontualmente , nos seus materiais publicitários e promocionais , a figura do dragão . Importa , contudo , salientar tal presença , até aos dias de hoje , em muitos dos rótulos de vinhos do Douro e também de Vinho do Porto , da histórica e portuguesa empresa “ Casa Ramos Pinto ”. Nestes casos , e em rigor , o símbolo heráldico da empresa aparece ladeado por seres mitológicos que , se nalguns casos se assemelham a quimeras aladas , noutros evocam a figura do dragão .
77 REVISTA DRAGÕES JULHO 2022