Dragões #428 Jul 2022 | Seite 76

A ROTA DO DRAGÃO

OS DRAGÕES do vinho do porto

Ao longo das últimas décadas o FC Porto afirmou-se como o principal embaixador da cidade . O clube é hoje a instituição que mais longe leva o nome do Porto . Isso mesmo reconheceu a Câmara Municipal , no passado dia 14 de maio , ao atribuir-lhe o mais alto galardão municipal : as Chaves da Cidade – condecoração que distingue personalidades que , pelo seu prestígio e pela sua ação , elevam o nome da cidade aos mais altos patamares internacionais . Mas , ao longo dos últimos séculos , uma outra “ instituição ” projetou à escala mundial a cidade : o Vinho do Porto . Pretexto para , em ano do centenário do emblema do clube e da sua associação ao dragão , abordarmos também esta figura mitológica , porque também ela anda associada ao Vinho do Porto .
TEXTO : JOEL CLETO FOTOS : SÉRGIO JACQUES

Reconhecido internacionalmente como um dos melhores e mais apreciados néctares do mundo , o Vinho do Porto deve em grande parte esta sua designação à importante e influente comunidade britânica que , fundamentalmente a partir do século XVII , cresce de um modo muito significativo na cidade graças à comercialização desta produção duriense . Com efeito , e porque na época o importante mercado de vinho francês lhes estava vedado , os britânicos envolver-se-iam de forma decisiva nesta atividade , dando a conhecer o vinho do Douro pelos quatro cantos do mundo . Mas , porque habitavam no Porto , aqui ( e em Gaia ) tinham as sedes e os armazéns das suas empresas , e porque o escoamento do vinho se fazia pela barra do Porto , os ingleses deram-lhe , por isso , o nome da cidade . Contudo , como bem sabemos , os vinhos do Douro , e especialmente o “ do Porto ”, são produzidos no Alto

Douro vinhateiro , muitas dezenas de quilómetros a montante do estuário e da cidade que lhe dá o nome . Aliás , produzido já desde a Idade Média , ele era conhecido entre nós por outras designações , como “ vinho fino ” ou “ vinho cheiroso de Lamego ”. Não . Não foram os ingleses que o inventaram . Devemoslhes , isso sim , a fama mundial e o nome “ Vinho do Porto ”. Indissociável , por isso , da região onde é produzido , caracterizada por condições naturais únicas e por uma longa relação harmoniosa do Homem com a natureza , bem evidente nos seus seculares socalcos , daí resultando uma paisagem que a UNESCO classificou como Património da Humanidade , o Douro vinhateiro tornou-se ao longo dos séculos XVII e XVIII numa importante fonte de rendimento do país . Contudo , e porque muitos procuravam enriquecer facilmente , adulterando e misturando vinhos de menor qualidade aos produzidos na região , as exportações começaram
a diminuir perigosamente . Assim , para travar tal quebra nas vendas e assegurar a qualidade que dava fama mundial ao “ Porto ”, o todo-poderoso Marquês do Pombal , então secretário de Estado do Reino ( algo comparável
às funções do atual Primeiro- Ministro ), cria aquela que é a mais antiga região vinícola demarcada e regulamentada do mundo . Ou seja : só poderia ser comercializado como “ vinho do Porto ” aquele que fosse originado no interior
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