Dragões #408 Nov 2020 | Seite 44

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A BOLA QUE NUNCA VENCEU AS DUAS RODAS
Foi uma vida sempre ligada ao ciclismo , mas esta não foi a única modalidade em que Amaro Antunes se aventurou . Antes de competir em cima de uma bicicleta , o algarvio jogou andebol . “ Até tinha algum jeito , pelo menos era o que diziam ”, contou , sem perder mais uma oportunidade para reforçar o amor que sente pelo ciclismo : “ O andebol nunca foi a minha modalidade do coração , ou seja , jogava andebol , mas só pensava no ciclismo . Sempre ambicionei ser ciclista ”.
por representar o meu clube ”. O plano inicial era simples : “ Entrar bem na Volta ao Algarve ”. “ Fiquei no décimo lugar e demonstrei que estava bem fisicamente ”, afirmou . Apesar de este ano ser tão distinto de todos os outros , a W52-FC Porto nunca se desviou do objetivo principal : “ Vínhamos para a Volta a Portugal com mais do que um candidato à vitória . Eu era uma das escolhas , mas o prólogo não me correu bem ”. Irritado e já no hotel , foram as palavras do diretor desportivo que mais o marcaram : “ O Nuno Ribeiro conversou comigo e tudo mudou . Entrou no meu quarto e disse : ‘ Então , já não sabes andar de bicicleta ? Não fiques desanimado , porque amanhã vamos controlar na frente e na Senhora da Graça vais atacar e vais ganhar a amarela !’ O Nuno já sabia o que ia acontecer dois dias antes ”. A sensivelmente 700 metros do alto do Monte Farinha , Amaro arrancou para a vitória e vestiu de amarelo pela primeira vez na Volta a Portugal . Nunca mais largou a camisola , muito graças ao “ excelente trabalho de toda a equipa ”, que o deixou nas “ melhores condições para vencer ”. “ Sem eles , nada disto teria acontecido ”, reforçou . A última etapa foi em contrarrelógio e qualquer deslize poderia ser fatal , mas Amaro Antunes sempre acreditou na vitória . “ Recordo-me que saí superfocado , decidido e , acima de tudo , confiante . Enquanto pedalava , ia sempre recebendo as indicações do Nuno Ribeiro e isso facilitou muito a minha tarefa . Sabia que ia com ótimas referências e , nos últimos dois quilómetros , disseme para ir tranquilo , uma vez que tínhamos margem para gerir ”. Só que os últimos 300 metros acabaram por ser caóticos . “ O Nuno disse-me nessa altura que eu ia vencer , deu-me os parabéns , mas eu continuei a acelerar . Na minha cabeça , tinha de o fazer . O Nuno disse-me para ir devagar , porque já estava ganho , mas naquele momento a adrenalina é tanta e , com o barulho do público , achei que tinha de acelerar ”. Cruzou a meta e o silêncio foi ensurdecedor : “ Comecei logo a perguntar se tinha ganho , porque passei de muito barulho para um silêncio
REVISTA DRAGÕES NOVEMBRO 2020