Dragões #408 Nov 2020 | Page 13

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Em África , há ainda muitas crianças que começam a jogar futebol na rua . Foi o seu caso ? Sim , foi como todas as crianças e jovens em África . Comecei a jogar futebol no meu bairro , em Kinshasa . A minha mãe foi basquetebolista e o meu pai já jogava futebol , mas não a um nível alto . Ele passou-me o dom e eu segui este caminho .

O futebol foi sempre uma paixão sua ou entrou na sua vida por acaso ? No início , foi por acaso . Mas quando comecei a praticar a modalidade todos me diziam que eu tinha qualquer coisa de especial e que deveria pensar seriamente em enveredar por uma carreira no futebol .
Sempre quis ser jogador de futebol ou teve outros sonhos ? Não vou mentir . Quando pensava no futuro sempre me via a ser futebolista .
É o mais velho de uma família com nove filhos . Já admitiu ter passado graves dificuldades financeiras num país massacrado pela guerra civil e pela pobreza extrema . Por vezes , como já contou , não havia comida na mesa em casa . Foi o próprio Mbemba quem teve de encontrar uma solução muitas vezes , não foi ? Em África , as famílias sonham ser ricas , mas nós não éramos assim . Em certos dias , tomava o pequeno-almoço de manhã e depois , à noite , se não houvesse nada , não havia , não jantávamos . Vivíamos dessa maneira , aceitámos essa realidade . Alguma coisa teríamos de comer a cada dia e eu ajudava no que podia . As dificuldades deramme força para trabalhar . Hoje em dia , fico muito feliz quando olho para a minha família e vejo como se encontra , tal como fico contente com a minha carreira , com tudo de uma forma geral .
Já deixou claro que trabalha muito duro . A sua prioridade número um é fazer tudo o que é possível para proporcionar uma boa vida à sua família ? Trabalho arduamente , de facto . O meu esforço é a pensar na minha família que está no Congo e nas pessoas que estão mais próximas de mim , ou seja , os meus filhos e a minha mulher . Esgoto as minhas forças para dar qualidade de vida aos meus familiares . Não desfruto muito , mas vou fazê-lo quando a minha carreira terminar .
Os obstáculos que teve de ultrapassar moldaram de certa forma a sua personalidade ? Não foi fácil enfrentar todas essas dificuldades , mas o importante é saber viver com isso . Temos de trabalhar continuamente e perceber que se trata de uma bênção . Há que aproveitar as oportunidades que surgem a cada dia .
Teve mesmo a intenção de ser eletricista para ajudar a sua família , era hábil nessa área ? Estudei em África para me tornar profissional nessa área , mas tive de abandonar os estudos no quinto ano por falta de meios . Era uma espécie de paixão minha , que se desenvolveu a partir do momento em que comecei a ver o meu tio desempenhar a atividade . Perguntei a mim próprio por que não faria o mesmo . Quando acabar a carreira de futebolista , quero manter-me no mundo do futebol , mas também voltarei a dar atenção ao setor da eletricidade para aprender um pouco mais . É algo perfeitamente normal na vida .
A sua mãe jogou na seleção nacional de basquetebol do Congo . Isso influenciou a sua decisão de seguir uma carreira desportiva ? Sim , peço conselhos desde cedo ao meu pai , porque ele jogou futebol , mas muitos são-me dados pela minha mãe . É alguém que chegou a um patamar muito elevado na seleção nacional de basquetebol e por isso é muito importante neste aspeto . Apoioume e apoia-me sempre , tal como
REVISTA DRAGÕES NOVEMBRO 2020