Dragões #364 Fev/Mar 2017 | Page 38

OS IMORTAIS # 38

OS IMORTAIS # 38

único e inimitável

TEXTO e FOTOS: MUSEU FC PORTO
Soares é um de vários jogadores que chegaram ao FC Porto a meio da época para acrescentar mais-valia ao plantel. Cubillas é o exemplo maior, até porque fora visto como um sonho impossível. Ainda hoje é considerado um dos melhores jogadores de sempre, no Porto e no mundo.

A estátua que se encontra no Museu testemunha a importância que Cubillas mantém no imaginário portista. É craque maior, ídolo não só de quem o viu jogar mas também daqueles que ouviram falar do incrível talento do peruano, capaz de pegar na bola de um lado do campo e levá-la à outra baliza, fintando quem lhe surgia pela frente, para fazer“ aquele golo”( como o que marcou ao Leixões, no dia 15 de dezembro de 1974, no Estádio do Mar). Chegou no inverno de 1973 / 74, envolto numa nuvem de entusiasmo mas também de polémica: podia lá ser um clube do Porto agarrar uma vedeta do futebol mundial, gastar tanto dinheiro num só jogador... E o ordenado? Que escândalo! Fracas reticências, bastaram uns quantos jogos e já ninguém contestava o mérito da contratação. Naqueles tempos não havia redes sociais nem a grelha televisiva( no singular, porque havia apenas um canal) era dominada

pelos programas futebolísticos, mas não faltavam fóruns onde o anúncio do interesse do FC Porto por Cubillas fosse considerado“ utopia”,“ loucura financeira” e, até,“ pacóvia”( a primeira visita de Cubillas ao Porto foi satirizada de vinda ao“ reino da parolândia” pela excelência da receção proporcionada pelos dirigentes do clube). À distância, percebe-se o impacto que a operação teve junto da Imprensa e dos clubes adversários conforme foram percebendo que poderia acabar em sucesso. Pelo meio, o Sporting tentou a sua sorte, sem êxito. Jorge Vieira, o responsável pelo departamento de futebol portista que liderou o processo de contratação, revelou( sem desmentido) o contacto dos“ leões”:“ Não sei os motivos que levaram o clube lisboeta a desistir. Sei, apenas, que se interessou e que foi concorrente neste assunto, pois estava no escritório de mr. Reisdorf quando lá chegou um telefonema dos leões”(“ O Porto”, 13 / 12 / 1973). O Inter de Milão também estaria na corrida...
MELHOR DO QUE PELÉ Para melhor se compreender o espanto, lembre-se que Cubillas, em 1972, foi considerado o Melhor Jogador Sul-Americano, à frente de Pelé. Era uma estrela planetária, depois de ter brilhado no Mundial de 1970, competição em que o“ seu” Peru apenas se deixou bater pelo fabuloso Brasil, que se sagraria campeão. Era este jogador de dimensão mundial que o FC Porto cobiçava. O peruano, transferido no defeso de 1972 do Alianza de Lima( onde foi sénior aos 16 anos) para o FC Basel, deu-se mal na Suíça, estranhando o clima( frio) mas também o facto de ser integrado numa equipa semiprofissional. Foi este descontentamento que abriu a oportunidade que o FC Porto se dispôs a aproveitar. Mas tinha que pagar 5600 contos(€ 27.932,68), quantia astronómica para os cofres do clube. Ainda
assim, a Direção presidida por Américo de Sá avançou para a negociação, enquanto apelava à ajuda financeira dos adeptos. O êxito desta campanha e o sucesso das diligências de Jorge Vieira junto do jogador e dos responsáveis do FC Basel tornaram o sonho realidade. Em dezembro de 1972, Cubillas aterrou no Aeroporto de Pedras Rubras, onde o esperava uma multidão de adeptos portistas. Não se comprometera ainda; fizera questão de confirmar“ in loco” que não teria, no Porto, outra desagradável surpresa como acontecera em Basileia. E ficou apaixonado:“ Não sou capaz de dizer o que sinto neste momento ao ver toda esta gente à espera”, confessou a“ O Porto”, já rendido à realidade portista. Gostou do pouco que viu da cidade, adorou o complexo das Antas. Regressou à Suíça rendido.
REVISTA DRAGÕES fevereiro / março 2017