Dragões #479 Out 2026 | Page 6

A VISÃO DO PRESIDENTE
OUTUBRO 2026 REVISTA DRAGÕES

De Pinochet a Fidel

Caros Portistas,
Outubro teve uma noite que nos mostrou, uma vez mais, a dimensão do FC Porto. Nos Dragões de Ouro, celebrámos muitos dos nossos campeões e distinguimos quem fez da época passada uma memória inesquecível. Diogo Costa( Atleta do Ano), Victor Froholdt( Futebolista do Ano), a equipa de futebol( Equipa do Ano) e Francesco Farioli( Treinador do Ano) receberam o reconhecimento de uma família que souberam unir e orgulhar. Claro está que o destaque do futebol não fez esquecer as restantes áreas: a renovação do Dragão e a Tétris, distinguida como Parceiro do Ano; o campeonato de basquetebol e a homenagem sentida ao Pedro Machado; a quarta Liga dos Campeões de hóquei em patins, representada no Dragão de Ouro de Gonçalo Alves; e a nossa extraordinária Carla Oliveira, que continua a amealhar vitórias e a espalhar sorrisos ao serviço do Clube. Com a atribuição do Dragão de Ouro de Atleta Revelação a Mateus Mide, reconhecemos o pleno histórico da formação e os miúdos que queremos ver escrever o nosso futuro.
Foi também uma noite de regresso às Antas, através das memórias que Cubillas e Futre transportam. Há jogadores que não ficam apenas nos registos: ficam nas tardes da nossa infância, nos abraços com os nossos familiares e amigos e na forma como aprendemos a amar o Futebol Clube do Porto. Honrámos também quem nos trouxe até aqui, com António Nicolau d’ Almeida, o nosso fundador, a ser distinguido a título póstumo com o Dragão de Honra. O seu nome recorda-nos onde tudo começou e a responsabilidade de continuar uma História que atravessa gerações. A todos os Dragonados, aos presentes e às equipas que prepararam esta gala magnífica, o nosso agradecimento. Cada prémio tem por trás muitas pessoas que trabalham longe dos aplausos.
No campeonato, nove vitórias em nove jornadas confirmam um percurso notável. Farioli já conquistou o seu lugar na História dos treinadores do FC Porto, mas é sobretudo no futuro que estamos concentrados. O seu mérito está na qualidade do trabalho, na exigência diária e na capacidade de fazer todos compreenderem o peso da Instituição. Os jogadores acreditam no treinador, no método e uns nos outros, e essa confiança tem de continuar acompanhada por disciplina e humildade. Estamos orgulhosos deste arranque, mas o campeonato está longe de terminar e o compromisso com a vitória exige-nos a mesma união quando ganhamos e quando surgem dificuldades.
Na Liga dos Campeões, temos de fazer muito melhor. Ninguém no Clube está indiferente aos resultados, nem a qualidade do percurso interno compensa tudo aquilo que ainda não conseguimos fazer na Europa. Temos uma responsabilidade histórica que exige uma resposta em campo. A qualificação para os oitavos de final continua a ser possível, mas precisamos de transformar a História que temos na competição em intensidade, concentração e capacidade competitiva. Acreditamos nesta equipa e exigimos dela, como de nós próprios, a capacidade de responder. É assim que somos; é assim que é o FC Porto: foi sempre a exigência que nos elevou a patamares a que nenhum outro clube conseguiu chegar.
É precisamente essa exigência interna que parece levar ao desespero os comentadores afetos ao“ Manto Marrom”. No clássico com o Benfica, o contacto de Samu nas costas de Bah foi promovido a“ agressão bárbara”, com direito a uma reconstrução dramática digna de cinema. Curiosamente, na época passada, quando um toque de um dedo bastou para desequilibrar Hjulmand e sustentar uma decisão favorável ao Sporting, a sensibilidade dos mesmos vigilantes foi muito diferente. A força dos contactos mede-se pela camisola e a indignação pelo resultado. Uma absoluta anedota, construída por quem não consegue aceitar a vitória do FC Porto sem procurar uma explicação que a diminua, seja qual for a imagem ou o ângulo. Quando o futebol lhes estraga o guião, há sempre um estúdio disponível para o reescrever.
É também enternecedor assistir à súbita paixão do Benfica por lances, imagens, ângulos e análises, depois de mais de uma década a transmitir os seus jogos na BTV. Tanta exigência de transparência merecia começar em casa: que os lances incómodos tenham a mesma atenção, os mesmos ângulos e o mesmo entusiasmo nas repetições que aqueles que servem a narrativa. Ou a liberdade de realização é um direito adquirido na Luz e uma conspiração quando ganha o FC Porto? Estamos também a adorar a evolução desta comunicação de guerrilha: entre o reformista Grupo Unum e aquilo a que poderíamos chamar APEC, a Associação de Putativos ou Ex-Candidatos, vão-se multiplicando as mais hilariantes teses sobre o nosso Clube. Discordam sobre quem deve mandar no Benfica, mas encontram uma comovente unidade quando se trata de explicar os sucessos do FC Porto por tudo menos pelo seu mérito. Se as imagens não confirmam a suspeita, exigem-se outros ângulos; se os outros ângulos também não ajudam, questiona--se a realização. A conclusão está escolhida; só falta encontrar uma imagem que lhe obedeça. Valham-nos os ovos Matinados para nos trazer de volta à realidade, porque tanta teoria já só dá para uma omeleta.
Na Madeira, foi preciso um golo legal do FC Porto para ofender a“ verdade desportiva” desejada pelos mesmos. Um centímetro em jogo é golo em qualquer lado do mundo, seja qual for a tecnologia, mas, na realidade virtual em que habitam, o golo legal do FC Porto não o deveria ter sido.“ Investigue-se”,“ é preciso perceber o que se passa”, dizem eles, porque a influência do FC Porto deve ser tal que até domina os centímetros. A conclusão estava escolhida antes de se desenharem as linhas: se o FC Porto ganhou, alguma coisa terá de estar errada. O problema não é o golo; é quem o marcou. E, quando os factos lhes retiram os argumentos, passam ao insulto pessoal.
Depois de Mário Figueiredo, jornalista e ex--atleta do Benfica, surge agora João Queiroz, assumido benfiquista e presença conhecida na BTV, a comparar o Presidente do FC Porto a Pinochet e a Fidel Castro. Importa enquadrar a comparação: falamos de governantes de regimes autoritários associados à tortura, a execuções políticas e à supressão de liberdades fundamentais. É a este ponto que chega o comentário televisivo. A palavra“ supostamente” não serve de detergente para a comparação. Pedir rigor não é censurar, responder a falsidades não é reprimir e defender uma Instituição de Sócios não é exercer uma ditadura. A liberdade de expressão que tanto invocam parece ter uma regra muito própria: eles podem ofender, mas o FC Porto não pode responder. E quem não aceita ficar calado ganha imediatamente um lugar na galeria dos ditadores. É mais fácil desqualificar quem exige respeito do que justificar a falta dele. As duas intervenções deram origem a participações à ERC, envolvendo os conteúdos e as responsabilidades de quem os proferiu ou difundiu. Não pode valer tudo na televisão portuguesa.
Na mesma tónica, surge Frederico Varandas, que regressou às suas habituais tiradas de memória seletiva, nas quais o Sporting e o seu Presidente habitam o Olimpo da ética e dos valores, sempre impolutos e intocáveis, passando uma borracha sobre os infindáveis casos que envolveram o seu Clube no passado. À boleia de uma piada do primeiro-ministro, enfiou a carapuça e encontrou uma nova frente, dispondo-se a mobilizar as hostes do associativismo do seu clube para influenciar o rumo da política nacional. O presidente que prometeu não falar de arbitragem passou então, na sua versão 2026 / 27, a influencer político. Os seus associados avaliarão se esta nova versão do seu presidente justifica a remuneração choruda que lhe atribuem. Nós registamos o regresso das lições públicas de moralidade que até ao primeiro-ministro chegam. Confessemos que já tínhamos saudades!
Voltemos, porém, ao golo na Madeira, porque teve outro mérito: parece ter despertado o Conselho de Arbitragem do sono profundo em que as nossas propostas tecnológicas permaneciam. Discutem-se finalmente um calendário de implementação e o investimento necessário no fora de jogo semiautomático e na tecnologia de linha de golo, quando o FC Porto reclama melhores meios há duas épocas. Bem hajas, Pietuszewski: talvez tenhas sido a chave para abrir as portas do futuro a um futebol que teima
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