incomodados por nos verem conservar talento e somar vitórias. Há avaliações que sobem com a camisola certa e desvalorizam o vizinho por obrigação editorial. Entre os potes dos sorteios e os preços que se atribuem ao talento, fica a pergunta: quanto vale um Pote? A resposta não pode depender da cor do cachecol de quem segura a calculadora. Num plano bem diferente, setembro voltou a expor a crise que envolve a liderança do Conselho de Arbitragem e as denúncias de Duarte Gomes. O FC Porto foi, tanto quanto é público, o único clube a defender expressamente a suspensão temporária de funções do Presidente do Conselho de Arbitragem enquanto são esclarecidos os factos e o próprio defende o seu bom nome. Fizemo-lo publicamente e através de comunicações institucionais à FPF e à Liga Portugal. Não confundimos uma investigação com uma condenação, nem pretendemos substituir-nos à justiça. O arquivamento do processo disciplinar deve ser respeitado, tal como deve ser esclarecida a matéria sob investigação judicial. Mas a proteção da credibilidade das competições não pode ficar dependente de uma espera indefinida enquanto a suspeição se instala sobre quem dirige a arbitragem. Entre os apoios públicos à continuidade de Luciano Gonçalves destacou-se o apoio de Frederico Varandas. Registamos essa posição, como registamos a diferença entre a prontidão de certos votos de confiança e a indignação imediata que surge quando o nome do FC Porto entra numa discussão. Para nós, o critério não muda com o destinatário: importa proteger as competições, os árbitros e a independência das suas decisões. Continuaremos a promover as diligências necessárias para obter esclarecimentos e a defender o afastamento temporário do presidente deste órgão. Um voto de confiança não substitui uma explicação, nem a defesa do bom nome de alguém exige que se exponha toda a competição ao desgaste da dúvida. É neste contexto que quero distinguir a coragem de Tiago Silva. Perante uma abordagem televisiva que procurou transformar a indignação pública e institucional do FC Porto sobre uma nomeação numa suspeita de interferência, defendeu o Clube sem se intimidar com o peso da redação ou com a autoridade que alguns julgam adquirir por ocuparem uma cadeira num estúdio. Questionou os rodapés, confrontou a narrativa e recusou aceitar que o FC Porto fosse apresentado como suspeito apenas por ter exercido o direito de discordar. Não pediu tratamento de favor; exigiu que não se confundisse a defesa da Instituição com aquilo que se pretendia insinuar contra ela. Essa frontalidade merece reconhecimento, sobretudo quando seria mais cómodo baixar a cabeça e deixar a emissão seguir.
No dia seguinte à reação do Clube, a suspeita mudou de roupa. A jornalista reconheceu que o FC Porto não estava sob suspeita, mas, já sem Tiago Silva no estúdio e perante uma plateia bem menos empenhada em contrariá-la, trocou“ suspeitas” por“ pressões”, como se uma mudança de vocabulário apagasse a mensagem que tinha sido transmitida. Uma investigação verdadeiramente prodigiosa: quando o suspeito não serve, muda-se o substantivo. O que não mudou foi a realidade de uma posição pública, assumida e conhecida desde janeiro, que não passou a ser clandestina por receber um rodapé vermelho em setembro. Quem reclama autoridade para escrutinar os outros tem de aceitar que também lhe sejam pedidas contas sobre o que afirma. A mesma jornalista terminou recentemente uma crónica com a máxima“ primeiro os factos, depois os comentários”. Um excelente princípio, cuja aplicação parece ter sido suspensa quando surgiu o nome do FC Porto. Neste caso, chegaram primeiro os rodapés, depois as insinuações e só mais tarde a necessidade de corrigir a história. O rigor não pode ser uma frase de assinatura que desaparece quando os factos estragam a narrativa; tem de existir precisamente nos momentos em que contraria preferências, audiências ou conveniências. Pior, talvez, seja a facilidade com que esta confusão entre profissão e bancada passa para a narração e o comentário dos jogos. No Benfica-FC Porto de andebol, n ' A Bola TV, ouvimos“ temos quatro golos para recuperar”. No NOW, durante o clássico de futebol, surgiu outra manifestação de isenção:“ Espero que o Benfica marque e equilibre o jogo”. Ficámos esclarecidos sobre quem precisava de recuperar e sobre quem desejava o empate. Falta apenas perceber por que razão se insiste em apresentar como neutralidade aquilo que a primeira pessoa do plural e a expressão de um desejo tornam tão transparente. Cada um é livre de apoiar o clube que entende; o que não pode é exigir ao público que confunda esse apoio com informação imparcial. Caros Sócios e Adeptos, o melhor modo de honrarmos estes 133 anos continua a ser manter os pés assentes na terra e o foco no essencial. Temos uma equipa em quem acreditamos, um treinador exigente, talento para desenvolver e uma massa associativa que nunca nos deixa sozinhos. Nada disso nos dispensa de trabalhar mais, de corrigir o que estiver errado e de permanecer unidos quando o caminho apertar. Que a nossa cultura, o nosso desejo e a nossa sede de vencer nos tragam muitas vitórias e a alegria de responder em campo às tristes almas que vivem mais preocupadas com a nossa queda do que com o seu próprio sucesso. O FC Porto continuará a crescer com a sua cidade, a honrar os seus e a procurar novas conquistas, porque a História que celebramos não nos pede descanso: exige-nos continuidade.
Viva o Futebol Clube do Porto.