Dragões #477 Ago 2026 | Page 7

forma tão cruel e desrespeitosa de tratar uma figura institucional da maior relevância. Para uma instituição que distribui lições permanentes sobre respeito, o mapa de lugares da tribuna transformou-se rapidamente num manifesto político. É pena que a renovada eficiência comunicacional, entre instituição e acólitos, não tenha sido mobilizada para esclarecer, com serenidade e transparência, o contexto de tantos processos e episódios que, com uma persistência notável, regressam continuamente à discussão pública. O respeito institucional, afinal, parece depender da conveniência do momento. Contra os aliados da Segunda Circular, porém, a indignação é habitualmente mais discreta, talvez por razões de vizinhança ou pela simples preservação desse histórico entendimento e lugar garantido na primeira fila.
No meio de todo este ruído, há também decisões que nos obrigam a falar de futuro, formação, sustentabilidade e da responsabilidade de governar um Clube que quer continuar a ganhar. Neste verão, dois jogadores formados em clubes portugueses chegaram ao futebol italiano através de operações com uma referência económica de 50 milhões de euros. Diego Moreira saiu do Benfica a custo zero, passou pelo Chelsea, pelo Lyon e pelo Estrasburgo e chegou agora ao AC Milan por 50 milhões de euros. Um talento formado em Portugal abandonou o clube que o desenvolveu sem qualquer retorno direto, percorreu diferentes campeonatos e acabou por gerar uma das maiores vendas do futebol francês. Não houve luto nacional, tribunais televisivos de contas, indignação permanente ou preocupação súbita com a perda de talento português. Houve silêncio.
Rodrigo Mora seguiu um caminho diferente: foi formado no FC Porto, cresceu no nosso Clube, encantou os nossos corações e chegou à AS Roma numa operação que o valoriza em 50 milhões de euros, garantindo ao FC Porto um encaixe imediato relevante e a preservação de uma participação determinante no seu futuro. De repente, instalaram-se a preocupação, a comoção, a tristeza e a fiscalização financeira, aos quais se juntou a típica memória seletiva da“ painelada” nacional. Perder um talento a custo zero não merece comentário; valorizá-lo em 50 milhões de euros transforma-se num problema, desde que o mérito e o retorno fiquem a Norte.
Para completar o ramalhete, no meio da negociação da transferência de Rodrigo Mora para a AS Roma, entrou em campo um oportunista à procura de palco: um comentador, figura totalmente paralela e irrelevante a todo o processo, mas com sede de protagonismo. Os seus serviços de advogado tiveram zero influência no desfecho das negociações entre Clubes mas as suas tristes opiniões obrigaram os pais do jogador a distanciarem-se das suas palavras e o agente do jogador a pedir desculpa à Instituição. A imoralidade da sua tomada de posição e a revelação dos contornos do negócio chocam com o dever de reserva e descrição profissional pelo qual se regem os advogados. O seu desrespeito pelo FC Porto e, principalmente, pelo treinador do FC Porto, jamais será esquecido.
O cenário perfeito será sempre aquele em que scouting, formação, sucesso desportivo e sucesso financeiro se encontram no momento certo: um Clube estável, poderoso, sem dívida, capaz de conservar os seus melhores talentos durante mais tempo e de escolher, sem constrangimentos, quando e em que condições os deixa partir. É para esse FC Porto que trabalhamos. Até lá chegarmos, o desporto é também feito de concessões, caminhos cruzados, decisões difíceis e da necessidade de proteger, simultaneamente, a sustentabilidade presente e futura, sem abdicar da obrigação de continuar a vencer. Rodrigo Mora junta-se a Vitinha, Rúben Neves, Diogo Dalot, Fábio Vieira e Fábio Silva, filhos da casa que partiram cedo para outras aventuras e que continuam a levar consigo uma parte da nossa identidade. Longe de casa mas perto do coração. Caro Rodrigo, o Dragão que te levou até Roma é o mesmo que, um dia, te trará de volta.
A todos os que nos criticam, aos que nos desvalorizam, aos que transformam cada decisão do FC Porto numa suspeita e cada sucesso num incómodo, deixamos também uma palavra de agradecimento. Não deixem de existir. Também vocês desempenham um papel principal na afirmação do maior Clube português. Obrigam-nos a estar atentos, a explicar melhor, a trabalhar mais e a recordar diariamente que, para o FC Porto, o caminho raramente é simples. Enquanto uns procuram diminuir-nos, nós continuamos a somar títulos. Enquanto uns constroem cartilhas, nós construímos equipas. Enquanto uns vivem do ruído, nós vivemos do trabalho, do rigor e da vitória.
Esta é a nossa ode ao FC Porto. Não uma canção de descanso ou uma celebração vazia daquilo que já conquistámos, mas uma declaração de compromisso com tudo o que ainda queremos vencer. Começámos bem, mas apenas começámos. A época será longa, difícil e cheia de obstáculos. Teremos de trabalhar mais, permanecer mais unidos e voltar a demonstrar que o todo é sempre maior do que a parte. O passado dá-nos orgulho, o presente exige--nos concentração e o futuro obriga-nos a não abdicar de nada.
Somos o FC Porto. O Clube com mais títulos do futebol português.
Viva o Futebol Clube do Porto.