FUTEBOL
AGOSTO 2026 REVISTA DRAGÕES
FRANCESCO FARIOLI SABE QUE O TREINO ACABA, MAS A FUNÇÃO CONTINUA: NA RELAÇÃO COM OS ADEPTOS, NA LEITURA DO LUGAR E NA OBRIGAÇÃO DE ESTAR À ALTURA DE UMA HISTÓRIA FEITA DE 88 TROFÉUS.
O número 88 cabe numa linha de palmarés, mas ocupa muito mais espaço no trabalho de Francesco Farioli. E se no Museu se transforma numa sucessão de taças nacionais e internacionais, no quotidiano converte-se numa medida de exigência, porque cada troféu revela o que o FC Porto conquistou e lembra ao treinador o que dele se espera. Foi já depois da vitória na Supertaça Cândido de Oliveira que o italiano falou ao canal desportivo britânico sobre a dimensão da instituição que representa. Chamou-lhe“ um clube enorme”, sublinhou-lhe a história e deteve-se no efeito provocado pela visita ao Museu:“ Quando entramos, vemos os troféus todos, os nacionais e os internacionais. Conquistar 88 títulos é um feito incrível, que faz do FC Porto o clube português com mais troféus.” Farioli já não observa essa coleção apenas como visitante. Campeão nacional e vencedor da Supertaça, também ajudou a ampliá-la. Talvez por isso, à palavra privilégio junte imediatamente outra menos confortável: responsabilidade, porque representar diariamente um clube desta dimensão significa receber uma história, mas também responder por ela.
Quando o treino acaba A dimensão do cargo, explica o técnico italiano, não se esgota no relvado. Preparar bem a equipa, escolher exercícios, corrigir movimentos e construir uma ideia de jogo continuam a ser tarefas fundamentais, embora insuficientes para definir o trabalho de um treinador do FC Porto.“ Neste contexto, não basta dar bons treinos no relvado, isso é só uma parte do trabalho”, afirma. A função cria uma ligação aos adeptos, ao clube e às pessoas que o dirigem, obriga a perceber o lugar, a linguagem e as expetativas que rodeiam a equipa. O treino pode terminar quando os jogadores regressam ao balneário, mas a responsabilidade não. A passagem pelo Ajax já lhe tinha mostrado como um clube de elite amplia as fronteiras da profissão, embora tenha encontrado no FC Porto outra história, outro ambiente e uma exigência com características próprias. Farioli inclui todos os adjuntos nesse processo de aprendizagem.“ Estamos todos a melhorar, a equipa técnica continua a crescer e tem sido uma experiência incrível.” A frase não procura disfarçar a ambição com falsa modéstia, reconhece apenas que, mesmo depois dos títulos, o trabalho continua em construção.
Muitas fronteiras O percurso de Farioli não se limita a desenhar uma linha reta, desenha um mapa. Catar, Turquia, Itália, França, Países Baixos e Portugal deram-lhe clubes, campeonatos, culturas e formas distintas de entender o futebol. Em cerca de uma década, mudou repetidamente de contexto sem querer mudar de convicções. A experiência ensinou-lhe que adaptação e cedência não são sinónimos.“ É possível mantermos as nossas ideias, mas também sermos elásticos e ajustarmo-nos às necessidades”, explica. A flexibilidade de que fala não apaga princípios, permitindo-lhes sobreviver a cada viagem. Cada mudança obrigou-o a voltar a observar antes de intervir. O mesmo modelo de treino não produz necessariamente a mesma resposta em países diferentes, tal como a mesma mensagem não chega de igual forma a todos os balneários. A ideia permanece, mas a maneira de a fazer chegar adapta-se. Esse percurso ajuda a explicar a forma como olha para o FC Porto. Farioli não chegou convencido de que bastaria transportar para o Dragão aquilo que tinha funcionado noutros lugares. Trouxe um método, uma visão e uma identidade, mas também a disponibilidade para perceber o que o clube lhe pedia.
Jovem não é profissão Farioli chegou cedo ao cargo de treinador principal, numa altura em que confiar uma equipa a alguém com pouco mais de 30 anos ainda parecia uma exceção. Entretanto, a exceção aproximou-se da moda e os bancos encheram-se de técnicos jovens. O italiano reconhece a mudança, mas recusa transformar a idade numa competência.“ Nunca quis que me contratassem por ser jovem”, garante. Nem a nacionalidade nem a data de nascimento deveriam valer mais do que a capacidade. Por isso, habituou-se a“ abrir o livro” nas entrevistas de emprego, expondo ideias, métodos e soluções com a profundidade necessária para que ninguém confundisse juventude com argumento suficiente. A chegada de uma nova geração também não lhe apaga a anterior. Farioli faz questão de reconhecer a qualidade e a experiência dos treinadores que o precederam e tudo o que trouxeram ao jogo. Renovar o futebol, na sua leitura, não exige começar a história do zero. Sete anos depois dos primeiros passos como treinador principal, a carreira continua jovem, mas já não se explica pela idade. Explica-se pelos países atravessados, pelos contextos compreendidos, pelas ideias postas à prova e pelos títulos conquistados. No FC Porto, os 88 colocam-lhe todas as manhãs o mesmo desafio: respeitar tudo o que ficou para trás sem perder de vista aquilo que ainda falta ganhar.
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