VOLEIBOL
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Em maio de 2024 disse que o dia da conquista do título foi o mais feliz da sua carreira. A dobradinha obrigou-o a refazer o ranking? Esta época foi a mais feliz da minha carreira, sem sombra de dúvidas. Não só pelos títulos, mas pelo que passámos no dia a dia, pela forma como produzimos bom volei, pela forma como nos conectámos com as jogadoras e pela forma como a equipa se relacionou com o público. Tudo isto fez com que tivesse de refazer o meu ranking.
Como é que se explica a hegemonia do FC Porto depois de uma época sem vencer títulos nacionais? Deve-se à qualidade das jogadoras, que é a principal peça de qualquer estrutura desportiva de alto nível. Depois disso, ao caráter de cada uma delas, tendo em conta a pessoa por trás da atleta.
Sente que o sucesso da equipa foi reduzido ao investimento feito no início da época? Toda a gente fala do investimento do FC Porto como se investir fosse uma coisa negativa, quando na verdade até precisávamos que mais clubes investissem para elevarmos o nível da Liga. Falou-se pouco das pessoas que estão por trás deste sucesso e da forma como o FC Porto jogou com várias peças dentro e fora do campo. Qualquer equipa que queira ser campeã tem de investir para continuar a produzir, mas o investimento não é sinónimo de qualidade de jogo. Só o talento das jogadoras, o caráter e a capacidade de trabalho é que poderão ser sinónimo de bom voleibol, de bom espírito e de uma boa performance durante toda a época.
A Natalia Murek foi um exemplo disso? Algumas das melhores memórias de superação desta época foram protagonizadas pela Murek. Tenho de revelar uma curiosidade: o jogo 4 na Luz foi a um domingo e, no sábado, a Murek entrou no pavilhão sem conseguir andar. Fomos todos apanhados de surpresa, o clube acionou todos os meios e o departamento médico fez um trabalho inacreditável, assim como a Murek, que no dia seguinte jogou cinco sets e ajudounos a vencer um jogo que nos poderia eliminar da corrida pelo título. Já andei pela Europa a ver as melhores jogadoras do mundo e não vi muitas com a ética de trabalho da Murek. Esta capacidade de liderar pelo exemplo não foi uma surpresa para nós, mas ainda assim ela consegue surpreender-nos diariamente. A Murek parece uma jogadora muito experiente, mas só tem 26 anos, e trouxe muitos ensinamentos transmitidos pelo pai, que teve uma carreira de alto nível.
E que também tem um gosto particular pelo FC Porto. Essa história parece brincadeira, mas não é. O pai da Murek conhece o FC Porto, gosta do FC Porto e foi isso que a trouxe para o FC Porto. Claro que as condições que nós temos e o nosso projeto também pesaram, mas a verdade é que a vontade do pai foi muito importante.
O que distingue a Milana Božić da Lila Durão e de que forma é que as duas conseguem ajudar a equipa? Gosto sempre de ter duas distribuidoras com características diferentes. Se apontássemos a principal diferença entre as duas seria a precisão da Milana e a capacidade que tem de subir o nível nos jogos decisivos face à velocidade que o sistema ofensivo assume quando a Lila entra em campo. Jogámos a época toda com duas distribuidoras e essa foi uma das nossas maiores armas.
Para um treinador, quão importante é ter duas distribuidoras de alto nível no plantel? É muito importante. Nós podemos mudar um jogo de várias formas, mas precisamos de armas para combater o adversário e, com duas distribuidoras, conseguimos fazer substituições diretas. Foram vários os exemplos em que conseguimos mudar o jogo através da dupla substituição, obrigando o adversário a adaptar-se constantemente ao nosso jogo.
O sucesso das centrais foi um reflexo da qualidade do grupo? Precisamente, porque as centrais dependem da qualidade do primeiro toque para serem solicitadas para o ataque. O trabalho coletivo tem de existir para que duas grandes armas ofensivas possam aparecer. A Saška Đurović e a Kelsey Veltman foram as nossas grandes armas ofensivas, muito pelo trabalho que toda a equipa foi desenvolvendo, e acabaram por ser importantes no bloco, que é uma ação fundamental.
O bloco foi decisivo na conquista da dobradinha? Sim, o bloco assumiu um papel brilhante nas transições e as nossas duas centrais foram muito eficazes. Elas só não terminam a época como as melhores blocadoras do campeonato, porque nós pusemos os adversários em posições difíceis de atacar a bola, o que reduziu a quantidade de blocos que tivemos de fazer. Dentro das oportunidades que tiveram, terminaram a época com bons números de bloco e ajudaramnos muito nas transições ao colocar pressão nas distribuidoras adversárias.
Como é que se convencem duas jogadoras de topo a renovar com o FC Porto? Em condições normais, a Kelsey e a Saška não deveriam jogar em Portugal. A Kelsey, por exemplo, nunca tinha ficado mais de um ano num clube. Fico feliz por saber que o FC Porto vai conseguir guardar as suas melhores peças para os próximos anos. Isto é um trabalho gigantesco de muita gente, desde a administração, aos funcionários e à estrutura à volta da equipa.
Como olha para a evolução da Beatriz Basto, uma atleta lançada por si no Leixões? Sinto-me responsável por ter acreditado nela e por ter apostado nela, mas nenhum treinador aposta em alguém que não tem capacidades. O meu papel foi o mais fácil, mas ela teve o mais difícil de todos. A minha aposta nela foi uma aposta natural, talvez não parecesse porque ela tinha 17 anos e estava a ser lançada para uma equipa que queria ganhar títulos, mas eu conheço-a bem e sei que ela treina no limite todos os dias. A Bitas vai continuar connosco e fico feliz por vê-la desfrutar de um voleibol de altíssimo nível e a subir de patamar na receção.
Fundamento em que foi decisiva no quinto jogo das meiasfinais, curiosamente. Sem dúvida. A receção foi um fundamento em que subiu muito de nível com a ajuda das colegas. A Bitas trabalha muito, trabalha bem e é muito inteligente. Na defesa nem se fala. Subiu o patamar de todas as líberos que
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