Dragões #476 Jul 2026 | Page 53

FUTSAL
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES
O CURRÍCULO NÃO O AFASTA DO PONTO DE PARTIDA. UM JOGADOR QUE VENCEU DUAS VEZES A EUROPA ACEITA COMEÇAR NA TERCEIRA CATEGORIA NACIONAL PORQUE PERCEBE O QUE ESTÁ EM CAUSA. NÃO DESCE DE PATAMAR; SOBE AO LUGAR ONDE SEMPRE QUIS ESTAR. rendimento, sabe o que é ganhar em Portugal e no estrangeiro, atravessou balneários, países e culturas e aprendeu a manter-se no topo durante mais de duas décadas. Ao mesmo tempo, chega com a disponibilidade de quem não pretende viver dos títulos conquistados.“ Não preciso da braçadeira para ser capitão. Capitão é-se pelo exemplo”, afirmou. É essa liderança que o FC Porto espera transportar para um plantel pensado para juntar juventude e experiência. Cardinal terá de marcar golos, fixar adversários e resolver jogos, mas também de explicar aos mais novos como se cuida de uma carreira, como se responde a uma derrota e como se representa um clube que entra em todas as competições para ganhar. O próprio já se disponibilizou para acompanhar a formação e transmitir aos jovens parte do que aprendeu. Aos 41 anos, regressa para jogar, não para ocupar uma função cerimonial. Os exames médicos confirmaram aquilo que sentia: o corpo ainda acompanha a ambição. Décadas de cuidado com a alimentação, o descanso e o treino permitem-lhe começar de novo quando muitos já teriam terminado.
Começar por baixo, olhar para cima A estreia do FC Porto no futsal sénior será feita no campeonato nacional da terceira divisão. Não há atalhos regulamentares, mesmo para quem chega com um nome desta dimensão. O caminho até à elite terá de ser percorrido dentro da quadra, subida após subida. André Pereira, antigo coordenador da formação e treinador dos sub-19 campeões regionais com 18 vitórias em 18 jornadas, foi escolhido para conduzir a equipa. Aos 29 anos, representa a continuidade de um projeto iniciado nas camadas jovens e assente numa ideia que vai além da contratação de figuras consagradas: formar jogadores, criar uma identidade reconhecível e construir uma base capaz de chegar à primeira divisão preparada para competir. Cardinal encaixa nessa visão precisamente porque o currículo não o afasta do ponto de partida. Um jogador que venceu duas vezes a Europa aceita começar na terceira categoria nacional porque percebe o que está em causa. Não desce de patamar; sobe ao lugar onde sempre quis estar. O objetivo imediato está assumido, garantir a a promoção à segunda divisão, mas o horizonte é muito mais vasto. O FC Porto quer chegar ao principal escalão, disputar títulos nacionais e lutar pelas competições europeias. Começa por baixo porque tem de começar por algum lado, mas não esconde para onde olha. Cardinal conhece bem esse percurso. Também ele começou perto de casa, em clubes sem a projeção dos gigantes que viria a representar. Também ele avançou etapa a etapa até vencer na maior competição europeia. Agora coloca essa experiência ao serviço de uma equipa que está a dar os primeiros passos.
A última estreia Ainda falta conhecer o dia, o adversário e o contexto exato do primeiro jogo no Dragão Arena, mas Cardinal já antecipou esse momento vezes sem conta.“ Só imagino o pavilhão cheio num jogo de futsal, comigo a marcar muitos golos. Vai ser difícil não cantar durante o jogo, mas tenho de controlar bem as emoções e manter-me concentrado.” Aos 41 anos, um jogador com centenas de golos, dezenas de troféus e passagens por alguns dos maiores clubes do mundo prepara-se para uma estreia. Talvez seja essa a melhor medida do sonho: depois de tudo o que ganhou, ainda há uma primeira vez capaz de o deixar sem palavras. Cardinal teve de sair, viajar, vencer e esperar. Teve de fazer carreira onde havia futsal e de separar, durante quase três décadas, a profissão da paixão. Agora já não precisa. O FC Porto entrou finalmente na modalidade e Cardinal chegou finalmente a casa.
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