FUTSAL
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Durante muitos anos, Cardinal viveu um paradoxo difícil de resolver: o clube era dele, mas a modalidade não. Podia seguir o FC Porto para todo o lado, festejar nas bancadas, viajar para finais europeias e guardar em casa uma vida inteira de memórias azuis e brancas. Só não podia fazer aquilo que melhor sabia com a camisola que sempre quis. O FC Porto não tinha futsal e o futsal não espera por ninguém. Fernando Cardinal teve de construir a carreira noutros lugares. Passou por vários clubes, saiu do país, jogou nos melhores campeonatos do mundo e vestiu a camisola do Sporting, rival pelo qual conquistou títulos nacionais e europeus. Não foi uma troca de paixões, foi apenas a carreira possível no mapa que existia. Para chegar ao topo, teve de procurar fora do FC Porto o espaço que o FC Porto ainda não lhe podia dar. Aos 41 anos, o mapa mudou. O clube criou uma equipa sénior de futsal, Cardinal regressou à quadra e aquilo que durante tanto tempo pareceu impossível tornouse oficial: o número 7 será o capitão da primeira equipa sénior da modalidade. Depois de duas Ligas dos Campeões, cinco campeonatos nacionais, três ligas espanholas e 123 internacionalizações, o momento que coloca acima de todos os outros não é uma final, um troféu ou um golo decisivo. É uma assinatura.“ Este é, sem dúvida alguma, o dia mais feliz da minha vida desportiva”, confessou, já no Dragão Arena, num momento em que as palavras pareciam insuficientes.“ Estou na melhor fase da minha carreira emocionalmente.” A frase ajuda a perceber por que razão esta contratação ultrapassa largamente a lógica desportiva. O FC Porto não foi buscar apenas um pivô experiente para atacar a subida à Segunda Divisão. Foi buscar alguém que conhece o emblema antes de conhecer o balneário, que já sabia o peso da camisola antes de a vestir e que passou boa parte da vida à espera de uma porta que ainda nem sequer existia.
Das Antas para o mundo Cardinal nasceu no Porto, a 26 de junho de 1985, e cresceu no Bairro do Aleixo, numa casa onde o FC Porto fazia parte da vida. As primeiras imagens do clube chegaram-lhe pela mão do pai, entre idas às Antas e tardes passadas na arquibancada. Idolatrava Gomes e Domingos, recorda a mãe a ir buscá-lo à piscina para lhe anunciar um título conquistado na Luz graças a um golo de Timofte e aprendeu cedo que o FC Porto não era apenas uma equipa que se acompanhava, era uma herança familiar. A vida obrigou-o a crescer depressa. Perdeu os pais muito novo, ficou aos cuidados da avó e encontrou no futsal um caminho quando outros, no bairro, podiam levá-lo noutras direções. Começou a jogar aos 11 anos, passou pelo Miramar, pela Cafetaria do Ouro, pela Mocidade da Arrábida e levou com ele tudo o que o Aleixo lhe ensinou: resistência, lealdade, capacidade de sobreviver aos dias difíceis e orgulho nas origens. Em 2004, a Fundação Jorge Antunes levou-o para Vizela e abriu-lhe a porta do escalão sénior. Seguiram-se Famalicense, Boavista, Alpendorada e Freixieiro. Cardinal foi marcando golos, concentrando atenção e percebendo que o talento lhe permitiria chegar longe, embora esse longe não incluísse o clube de que era adepto. Quando surgiu o Sporting, surgiu também a oportunidade de competir por títulos. Na primeira época em Lisboa marcou 45 golos em 38 jogos e foi o melhor marcador da equipa campeã nacional. Na seguinte chegou aos 60 em 34 partidas, venceu todas as competições internas e despertou o interesse do CSKA de Moscovo. Foi aí que a carreira ganhou dimensão internacional. Depois da Rússia e de uma passagem demolidora pelo Rio Ave – 29 golos em apenas 12 jogos –, mudou-se para o Inter Movistar e, mais tarde, para o ElPozo Murcia. Em quatro temporadas no futsal espanhol conquistou nove troféus e impôs-se como um dos melhores pivôs da sua geração. Regressou depois ao Sporting para acrescentar ao palmarés duas Ligas dos Campeões. Seguiram-se uma passagem por Itália, o regresso a casa para ajudar o Caxinas a alcançar uma qualificação inédita para o play-off e uma aventura no Corinthians, que fez dele o primeiro europeu a jogar no campeonato brasileiro. O percurso explica a dimensão do jogador. O destino escolhido para o fechar explica a dimensão do portista.
O rival era a carreira, o Porto era a vida Seria fácil transformar os anos passados no Sporting numa contradição. Cardinal nunca os escondeu nem precisa de os diminuir. Foi em Alvalade que encontrou condições para competir ao mais alto nível em Portugal, ganhou campeonatos, taças e duas Ligas dos Campeões. O profissional fez aquilo que o talento exigia, mas o adepto continuou onde sempre tinha estado. Enquanto marcava golos com outras camisolas, Cardinal seguia o FC Porto
CARDINAL CRESCEU NO BAIRRO DO ALEIXO, NUMA CASA ONDE O FC PORTO FAZIA PARTE DA VIDA. AS PRIMEIRAS IMAGENS DO CLUBE CHEGARAM-LHE PELA MÃO DO PAI, ENTRE IDAS ÀS ANTAS E TARDES PASSADAS NA ARQUIBANCADA. IDOLATRAVA GOMES E DOMINGOS.
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