FUTEBOL
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES
O FC PORTO NÃO TERMINA NAS FRONTEIRAS DO CAMPEONATO PORTUGUÊS. POR VEZES, REAPARECE DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO NUMA LUVA ABERTA, NUM MÉDIO QUE DECIDE OU NUMA RECORDAÇÃO
QUE AINDA SABE O CAMINHO PARA CASA.
Quando a bola parou entre o Canadá, os Estados Unidos e o México, o balanço do Mundial também incluía o FC Porto. Pelos jogadores que levou à maior montra do futebol, pelos antigos Dragões que continuam a carregar o clube na memória e pelos momentos em que uma defesa, um golo ou uma frase bastaram para reabrir o arquivo. Diogo Costa por Portugal, Stephen Eustáquio pelo Canadá, Deniz Gül pela Turquia e Seko Fofana pela Costa do Marfim levaram o clube para diferentes grupos, contextos e geografias emocionais. Nem todos tiveram o mesmo tempo de antena ou o mesmo peso narrativo, mas todos prolongaram uma ideia antiga e sempre nova: o FC Porto não termina nas fronteiras do campeonato português. Por vezes, reaparece do outro lado do Atlântico numa luva aberta, num médio que decide ou numa recordação que ainda sabe o caminho para casa. O episódio mais cinematográfico pertenceu a Stephen Eustáquio. O Canadá procurava um lugar inédito nos oitavos de final e o jogo com a África do Sul parecia fechado numa daquelas tardes em que a história bate à porta, mas ninguém encontra a chave. Já no tempo de compensação, a bola sobrou para o médio do FC Porto. Eustáquio dominou, rematou e fez o golo que mudou a vida futebolística de uma seleção inteira. Depois, explicou-o como se um remate pudesse ser mais do que um remate. Sentiu, disse ele, que todos tinham metido força naquela bola. O Canadá venceu por 1-0, seguiu em frente e encontrou no número 7 um herói sem necessidade de trombetas. A campanha canadiana já carregava alguns sinais. Eustáquio tinha sido capitão na goleada ao Catar, a primeira vitória do país em Campeonatos do Mundo, e afirmava-se como peça central de uma seleção anfitriã com uma nova ambição. O golo à África do Sul deu outra espessura a essa presença. Já não era apenas participação, liderança ou competência. Era memória, com minuto, resultado e consequência. O futebol, quando quer ser generoso, pode resumir-se assim, num toque, num remate, numa porta aberta para território desconhecido. Diogo Costa escreveu um capítulo diferente. No empate sem golos frente à Colômbia, numa noite difícil para Portugal, o capitão do FC Porto fez seis defesas, impediu o adversário de marcar e foi eleito o melhor em campo. Ainda assim, teria trocado o prémio pela vitória.“ Hoje fui eu que ajudei a equipa”, resumiu, lembrando que no jogo seguinte poderia ser outro qualquer. Uma frase simples, mas reveladora da ideia de equipa que também se aprende no Dragão. A competição voltou a precisar dele. Diogo ajudou Portugal a seguir em frente, fechou a baliza quando foi preciso e resistiu até na derrota com a Espanha nos oitavos de final. A eliminação não apagou uma exibição de enorme nível, nem a sensação de que a baliza portuguesa teve sempre uma última sentinela antes do abismo. O percurso de Portugal terminou ali, mas a avaliação de Diogo Costa só ficou fechada depois da final. Na versão definitiva dos Power Rankings, o capitão do FC Porto venceu a categoria“ Defending the Goal”, que avalia a capacidade dos guarda-redes para impedir os golos. Ficou à frente de todos os concorrentes, incluindo Unai Simón. O espanhol conquistou o Mundial e recebeu a Luva de Ouro, mas Diogo foi, para a FIFA, o melhor na defesa da baliza. A classificação desenvolvida sob orientação de Arsène Wenger mediu o desempenho ao longo dos 104 encontros e encontrou no capitão do FC Porto o guarda-redes com maior capacidade para fazer a diferença, com o reconhecimento final a dar forma estatística ao que os jogos já tinham mostrado. O Portugal-Colômbia trouxe ainda um capítulo mais íntimo. James Rodríguez, capitão colombiano, voltou a falar do clube em que se fez estrela europeia antes de o mundo inteiro o descobrir no Brasil, em 2014. Questionado sobre André Villas-Boas e o FC Porto, confessou-se“ portista mesmo”, falou de um clube que leva no coração e recordou vitórias, momentos únicos e uma filha ligada à cidade. Não foi apenas uma frase simpática de zona mista, mas sim a prova de que há clubes que continuam nos jogadores muito depois de os jogadores mudarem de camisola. Esta história não se conta, por isso, como uma simples contabilidade de presenças, mas como um mapa de marcas, umas mais profundas do que outras. O FC Porto esteve no Mundial através de Diogo, Eustáquio, Deniz e Seko. Esteve em James, Quintero e Luis Díaz, adversários de Portugal e três das grandes figuras da Colômbia, e noutros antigos Dragões que chegaram ao torneio com outra idade, outro clube e memórias do mesmo lugar. No fim, o Mundial deixou campeões, derrotados, histórias novas e algumas feridas abertas. Deixou também uma assinatura invisível: o FC Porto no golo que abriu os oitavos de final ao Canadá, nas defesas que colocaram Diogo Costa no topo da classificação da FIFA e nas palavras com que James Rodríguez voltou a aproximar passado e presente. Eustáquio e Diogo chegaram ao torneio como jogadores do clube. James mostrou que, mesmo depois de sair, continuava a levá-lo com ele.
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