Dragões #476 Jul 2026 | Page 20

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Roterdão escolheu o Villa

O Aston Villa entrou em Roterdão pela primeira vez e saiu de lá para sempre. Diante do Bayern Munique, perdeu o guarda-redes titular, entregou a baliza a um quase desconhecido e encontrou num golo de Peter Withe a passagem para a eternidade. Em 1982, Birmingham ganhou a Europa. Cinco anos depois, o FC Porto repetiria em Viena o mesmo gesto diante do mesmo adversário.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA

O ponto mais alto da história do Villa fica longe de Aston, o bairro de Birmingham que lhe deu o nome. A 26 de maio de 1982, em Roterdão, os Villans entraram no De Kuip para defrontar o Bayern Munique e saíram de lá com a Taça dos Campeões Europeus. Não foi apenas a maior noite da sua história, foi a noite em que um emblema antigo do futebol inglês, fundado no século XIX e habituado ao peso da tradição, acrescentou à memória doméstica uma coroa continental. O curioso é que nada naquela final parecia escrito para ser simples. O Aston Villa atingia a primeira participação na maior competição europeia de clubes, depois de conquistar o campeonato inglês em 1980 / 81, e encontrava pela frente um Bayern habituado a mandar na Europa, povoado por nomes pesados e acompanhado por essa aura alemã de quem raramente treme quando o jogo começa a pedir nervos de aço. Em resumo, a lógica apontava para Munique, mas a noite escolheu Birmingham. O percurso já tinha avisado que aquele Villa não era um figurante de luxo. Primeiro ficou pelo caminho o Valur, da Islândia. Depois veio o Dínamo de Berlim, ultrapassado com o valor dos golos fora numa eliminatória de arestas afiadas. Nos quartos de final, o Dínamo de Kiev resistiu na União Soviética, mas caiu no Villa Park. Nas meias-finais, bastou um golo de Tony Morley para derrubar o Anderlecht e abrir a porta de Roterdão. O Aston Villa chegava à final com passos curtos e uma estranha capacidade para sobreviver às noites difíceis. A final, porém, começou por lhe retirar chão. Ainda a partida mal tinha aquecido quando Jimmy Rimmer, guarda-redes titular, se lesionou e teve de sair. Entrou Nigel Spink, jovem suplente quase desconhecido, com apenas uma presença anterior pela equipa principal. A maior noite da história do Aston Villa passou, de repente, para as luvas de um homem que praticamente não tinha história na baliza do clube. O futebol gosta mesmo destes absurdos: coloca um desconhecido no centro da tempestade e espera para ver se ele se desfaz ou se se transforma. Spink transformou-se. Defendeu, segurou, comandou a área como se aquele palco lhe pertencesse desde sempre e impediu que o Bayern transformasse a pressão em sentença. Do outro lado, o Aston Villa aguentava-se com a resistência de uma equipa que sabia estar perante uma oportunidade irrepetível. Não precisava de dominar a final, só precisava de chegar vivo ao momento certo. Esse momento apareceu aos 67 minutos. Gary Shaw lançou a jogada, Tony Morley

ganhou espaço pela esquerda e cruzou rasteiro para a zona onde os grandes avançados parecem chegar antes de a bola saber que os procura. Peter Withe apareceu ao segundo poste e empurrou para a baliza. O gesto não teve ornamento. Não precisou. Foi um desses golos que não querem ser bonitos, querem ser definitivos. A bola entrou, o Aston Villa passou para a frente e a Taça dos Campeões Europeus começou a inclinar-se para Inglaterra. O Bayern de Paul Breitner, Karl-Heinz Rummenigge e Dieter Hoeneß ainda tentou devolver a noite ao guião esperado, mas encontrou Spink, encontrou pernas cansadas dispostas a correr mais um metro, encontrou centrais a afastar perigo, médios a fechar caminhos e uma equipa inteira a defender o direito à eternidade. Os últimos minutos alongaram-se como só se alongam os minutos de uma final europeia. Para quem via de fora, eram instantes, para quem estava de“ claret and blue”, devem ter parecido uma estação do ano completa. Quando o árbitro apitou pela última vez, o Aston Villa era campeão europeu.
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