Dragões #474 Mai 2026 | Page 24

ESPECIAL CAMPEÕES
MAIO 2026 REVISTA DRAGÕES

O SÉ7IMO ELEMENTO

Quinze anos depois de ganhar a liga a partir do banco, André Villas-Boas volta a aparecer na fotografia do título nacional. Desta vez não esteve no banco, mas na presidência, não desenhou a equipa no quadro, mas governou uma época em que o FC Porto entrou na frente, isolou-se à quarta jornada e passou o resto do campeonato a obrigar a concorrência a discutir cenários que a tabela nunca se deu ao trabalho de confirmar.

Sete nomes atravessam agora a história do FC Porto pelo corredor reservado aos presidentes campeões nacionais. Eduardo Dumont Villares abriu a porta, Ângelo César confirmou a ambição, Cesário Bonito devolveu a festa depois da espera, Paulo Pombo ganhou ao sprint, Américo de Sá pôs fim a uma longa travessia, Jorge Nuno Pinto da Costa transformou a exceção em doutrina e André Villas-Boas acrescentoulhe uma nova assinatura, carregada de passado e voltada para o futuro. O 31.º título nacional do FC Porto é também o primeiro da presidência de André Villas-Boas, o sétimo líder azul e branco a inscrever o nome na lista dos campeões. A galeria não é extensa, e talvez por isso diga tanto. Em mais de nove décadas de campeonato nacional, só sete presidentes do FC Porto conheceram esta forma particular de eternidade, aquela em que o poder do cargo se mede menos pela solenidade da fotografia e mais pela celebração coletiva que começa no relvado, sobe às bancadas e acaba guardada no arquivo sentimental do clube. Há, porém, no caso de Villas-Boas, uma camada suplementar. O presidente campeão já tinha sido treinador campeão. Em 2010 / 11, sentado no banco, conduziu uma equipa memorável a um campeonato sem derrotas, festejado no Estádio da Luz, numa época de Supertaça, Taça de Portugal e Liga Europa. Quinze anos depois, noutra função, com outro peso e outro tipo de silêncio, volta a ligar o próprio nome a um título nacional do FC Porto. Mudou o lugar no retrato, mas não mudou a ligação à obra. Se como treinador foi rosto de uma equipa vertiginosa, feroz, quase insolente na forma como transformava obstáculos em formalidades, como presidente viu o título nascer de uma responsabilidade diferente. Já não lhe cabia desenhar a pressão alta, escolher o onze ou corrigir o jogo ao intervalo. Coube-lhe definir enquadramento, proteger uma ideia, escolher lideranças, reconstruir confiança, governar o clube num tempo de transição profunda e devolver ao FC Porto a sensação de que renovar não significa desenraizar. A entrada de André Villas-Boas nesta lista tem ainda o peso simbólico de suceder ao maior nome da história presidencial do clube. Jorge Nuno Pinto da Costa foi campeão nacional por 23 vezes enquanto presidente, cerca de três quartos de todos os campeonatos conquistados pelo FC Porto, e ergueu uma hegemonia que não cabe apenas na aritmética. O seu tempo alterou a escala do clube, deslocou fronteiras, conquistou a Europa e o mundo, e fez do hábito de ganhar uma espécie de idioma portista. O primeiro título nacional depois desse ciclo não apaga essa herança, nem pretende substituí-la, acrescenta-lhe continuidade por outro caminho. Porque é disso que também se trata, o FC Porto voltou a ser campeão com um presidente que conhece o clube

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