ESPECIAL CAMPEÕES
MAIO 2026 REVISTA DRAGÕES
nela pelo volume da voz, nem por uma pose de salvador, entrou pela única porta que realmente conta: a do título. A marca ganha outra espessura por ser imediata. Farioli é também o 13.º treinador campeão nacional pelo FC Porto na época de estreia, feito que o aproxima de uma linhagem particular, a dos treinadores que não precisaram de uma longa aclimatação para entender o peso da camisola. No Dragão, a adaptação tem uma medida cruel, porque não basta conhecer o clube, é preciso vencer antes de o conhecimento parecer completo. Farioli conseguiu-o. Transformou uma primeira época num ponto de chegada e, ao mesmo tempo, num manifesto de continuidade. E depois há a bandeira italiana, finalmente hasteada no lugar mais alto. Antes dele, Cattulo Gadda, Alejandro Scopelli, Héctor Puricelli e Luigi Del Neri tinham passado pela história técnica do FC Porto sem chegar ao título nacional. Gadda pertence ao tempo fundador, quase artesanal, em que o futebol ainda se aprendia com sotaque estrangeiro e bola de couro pesado. Scopelli, nascido na Argentina e naturalizado italiano, e Puricelli, uruguaio de nascimento e internacional por Itália, pertenciam a essa linhagem dos“ oriundi” que o futebol italiano acolheu e projetou. Trouxeram outro tipo de escola, outra cultura de jogo, outro nome. Del Neri ficou como episódio breve, quase nota de rodapé antes de uma temporada de sucessões e turbulência. Farioli, o quinto italiano da linhagem, foi o primeiro a completar o caminho. Depois do jogo com o Alverca, o próprio treinador recusou transformar a noite numa estátua pessoal. Falou de emoção, de grupo, de André Villas-Boas e, sobretudo, de Jorge Costa. Disse que a força da época tinha sido“ o Jorge”, recordou as suas últimas palavras –“ voltamos a ter uma equipa” – e viu na forma como Alberto Costa e Alan Varela evitaram o empate qualquer coisa do ADN competitivo do antigo capitão. Foi talvez aí que o título deixou de ser apenas estatística e passou a pertencer também ao campo invisível das presenças. Farioli explicou que começou a perceber a dimensão do momento apenas nos últimos minutos. Até lá, continuava preso ao jogo, ao detalhe, à próxima ação. O treinador campeão ainda estava a treinar. A pergunta sobre mérito pessoal teve resposta com humor e elegância: aceitar a proposta do presidente teria sido a única coisa que fizera realmente bem. Era falsa modéstia, claro, mas também uma forma de devolver o protagonismo ao projeto. Farioli ligou o título a André Villas-Boas, à ligação imediata entre ambos, aos jogadores, ao staff, às pessoas que atravessaram a época por dentro. Não se apresentou como autor único e preferiu ser visto como maestro de uma obra coletiva. Por isso, este campeonato também pode ser contado por um número: 18. Ou por uma nacionalidade: italiano. Ou por uma raridade: campeão à primeira. Mas talvez se explique melhor por uma frase simples, a tal que parecia repetitiva até deixar de o ser. Jogo a jogo, Farioli empurrou o FC Porto para o lugar onde a sua história respira melhor: o primeiro.
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