Dragões #474 Mai 2026 | Page 10

FUTEBOL ESPECIAL CAMPEÕES

DEZEMBRO MAIO 2026 2025 REVISTA DRAGÕES the italian Job *

Francesco Farioli chegou ao FC Porto sem pedir tempo de adaptação nem licença para conhecer a casa. Pegou numa equipa que precisava de voltar a mandar no próprio destino, atravessou a época com autoridade e acabou onde a exigência começa: no lugar dos campeões. Pelo caminho, fez história também no passaporte, tornando-se o primeiro italiano a vencer a liga portuguesa de azul e branco.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA

Francesco Farioli entrou no FC Porto pela porta estreita da exigência. O clube vinha de uma época longe do lugar a que se habituou, de um verão turbulento, de dúvidas competitivas e de um daqueles momentos em que a história não serve de almofada, apenas de cobrança. O treinador italiano chegou em julho com currículo europeu, ideias próprias e a memória ainda fresca de uma ferida aberta em Amesterdão, onde o Ajax deixara escapar o título neerlandês na reta final. Mas no Dragão não havia tempo para biografias magoadas, havia uma equipa para reconstruir, uma liderança para recuperar e um campeonato para atacar desde a primeira jornada. Farioli fê-lo sem foguetório verbal. A sua palavra preferida foi quase sempre a mais simples: processo. A outra expressão, repetida até parecer pequena, acabou por se revelar enorme:“ jogo a jogo”. No início soava a prudência de treinador, no fim percebeu-se que era método. O FC Porto foi crescendo dentro da própria época, menos preocupado em parecer exuberante todos os domingos do que em ser consistente quando a margem de erro começava a emagrecer. E foi assim, entre vitórias de controlo e uma autoridade construída sem necessidade de gritar por ela, que o italiano entrou numa galeria reservada. Com o título confirmado à antepenúltima jornada, frente ao Alverca, Farioli passou a ser o 18.º treinador campeão nacional pelo FC Porto, depois de Joseph Szabo, Mihály Siska, Dorival Yustrich, Béla Guttmann, José Maria Pedroto, Artur Jorge, Tomislav Ivić, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos, José Mourinho, Co Adriaanse, Jesualdo Ferreira, André Villas-Boas, Vítor Pereira e Sérgio Conceição. A lista atravessa quase um século de futebol azul e branco, vai da fundação competitiva do clube moderno à era europeia, passa por mestres, revolucionários, pragmáticos e construtores de ciclos. Farioli não entrou

(*) Referência a The Italian Job, filme britânico de 1969 mais tarde reimaginado num remake norte-americano de 2003. O título convoca a ideia de um plano montado ao detalhe, de uma operação preparada com método e executada com precisão. No caso do FC Porto, o“ Italian Job” teve outro protagonista e outro desfecho: Francesco Farioli, ordem sobre o caos, uma época trabalhada ao milímetro e o título nacional como golpe final.
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