GUARDA FACTOS
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES
Primos de futuro
O FC Porto viu mais um Fernandes tocar cedo o futebol profissional, mas não viu uma repetição. Francisco, médio de ligação e leitura, estreou-se pelo FC Porto B aos 17 anos e aproximou-se um pouco mais do sonho que assumiu em voz alta quando assinou contrato profissional: chegar à equipa principal, de preferência com o primo Martim ao lado.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA
Francisco Fernandes entrou pela primeira vez no mapa do futebol profissional em Lourosa e deu ao percurso um novo contorno. Aos 17 anos, o médio somou os primeiros minutos pelo FC Porto B no empate frente ao Lusitânia e começou a transformar promessa em presença. O apelido aproxima-o inevitavelmente de Martim Fernandes, o primo que já chegou à equipa principal, mas a história ganha interesse justamente porque não vive de espelhos. Francisco não surge como réplica de ninguém, surge como um médio com ideias próprias, a abrir espaço no jogo e no tempo certo. Entre os dois há sangue, precocidade e ambição, mas também uma diferença de natureza em campo. Martim, defesa, habituou-se a crescer a partir da contenção, da reação e da coragem
40 no duelo; Francisco, médio, parece chamado a outra geografia, a da ligação, da leitura e da condução do ritmo. Um fecha caminhos, o outro tenta descobrilos. Separados por 2 anos, 8 meses e 12 dias, partilham a mesma raiz, mas não o mesmo guião. Martim estreou-se como profissional pela equipa B a 7 de agosto de 2022, frente ao Sporting da Covilhã, com 16 anos, 6 meses e 20 dias. Francisco chegou agora a esse território e entrou nele pela sua própria porta. Talvez por isso ganhem agora outra luz as palavras que Francisco deixou em outubro de 2024, quando assinou contrato profissional com o FC Porto. Disse estar“ muito feliz”, prometeu continuar a trabalhar como até então e confessou o desejo de um dia se estrear pela equipa A,“ de preferência com o Martim” ao lado. Havia ternura familiar nessa frase, mas havia também uma linha de horizonte muito nítida. Não era apenas um miúdo a sonhar alto, era alguém a dizer, com a serenidade de quem sabe o que quer, que queria chegar ali com trabalho, com identidade e com a camisola certa. E o caminho, percebe-se agora melhor, já vinha a dar sinais. Antes da estreia em Lourosa, Francisco tinha deixado a sua assinatura num dos momentos mais expressivos da época dos Sub-19 – o lance individual com que fechou o 6-0 frente ao Sporting. Houve ali qualquer coisa de Messi, não pelo peso excessivo da comparação, mas pela natureza do gesto: a bola colada ao pé, a mudança de direção em espaço curto, a impressão de que os adversários chegavam sempre um instante mais tarde ao raciocínio. Aquela jogada não serviu apenas para fechar um resultado, serviu para revelar um jogador, um médio com imaginação, atrevimento e potencial, alguém que não pede licença ao apelido que carrega e começa, passo a passo, a escrever o próprio nome.