Num clássico que já pedia nervo, Oskar Pietuszewski resolveu acrescentar irreverência e fez de Otamendi apenas mais um detalhe antes do golo.
BENFICA 2:2 FC PORTO
O empate na Luz manteve intacta a contabilidade do campeonato, mas deixou no ar uma sensação menos matemática do que emocional. Ao cabo de 25 jornadas, o FC Porto continuava isolado no primeiro lugar, com quatro pontos de vantagem sobre o Sporting e sete sobre o Benfica, mas saiu de Lisboa com a impressão nítida de que deixou fugir mais do que dois pontos. Deixou escapar um jogo que teve nas mãos, no pé e no controlo durante largos minutos. Entre linhas, houve duas verdades a conviver no mesmo relvado. A primeira foi a de uma equipa que entrou com autoridade, personalidade e ambição de líder. O FC Porto marcou cedo, por Froholdt e, mais tarde, por Pietuszewski, empurrou o rival para trás, foi mais claro na primeira parte e chegou ao intervalo com uma vantagem que espelhava o que o jogo estava a ser. A segunda foi mais amarga: quando teve oportunidade para fechar a porta, não o fez. E num clássico jogado ao milímetro, essa hesitação costuma cobrar juros. Francesco Farioli resumiu a noite sem rodeios. Falou em falta de eficácia, lembrou que o FC Porto foi a Lisboa para vencer e sublinhou que houve“ cinco ou seis situações” em que a equipa devia ter matado o jogo. A ideia central da análise do treinador é difícil de contrariar, porque o plano apareceu e a superioridade também. Só faltou o golpe final. E quando um adversário desta dimensão se mantém vivo, o risco de regressar ao jogo deixa de ser ameaça e passa a ser quase lei. Diogo Costa tocou noutro ponto decisivo e talvez ainda mais revelador. Mais do que uma quebra de atitude, identificou uma quebra de gestão. O capitão falou em falta de maturidade e esse é um diagnóstico que diz muito sobre a natureza do empate. O FC Porto não perdeu o rumo por ausência de coragem, nem por ter entrado encolhido num dos palcos mais exigentes do campeonato. Perdeu-o porque, depois de fazer quase tudo bem, não conseguiu administrar emocional e competitivamente a vantagem que tinha construído. É por isso que o clássico deixou um travo agridoce. O empate preservou distâncias, protegeu a liderança e impediu qualquer abalo sísmico na tabela, mas não ofereceu a tranquilidade de um resultado satisfatório. Há empates que sabem a resistência, mas este soube a oportunidade desperdiçada. O FC Porto fez o suficiente para sair da Luz mais forte na classificação e no discurso, mas acabou por reforçar apenas a primeira metade da equação. Ainda assim, convém não perder de vista o essencial. A liderança manteve-se, a vantagem continuou do mesmo lado e a equipa voltou a mostrar, durante muito tempo, que consegue discutir os grandes jogos com personalidade, coragem e qualidade. O que a Luz expôs não foi uma equipa incapaz, mas uma equipa que ainda procurava a frieza total para transformar superioridade em sentença.
Havia três pontos para guardar e uma noite para fechar com chave de ouro. William Gomes tratou das duas coisas no mesmo remate.
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