Dragões #471 Fev 2026 | Page 33

ENTRE LINHAS
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
Bednarek disputa no céu o que é de todos e Rosario lê cá em baixo o que é de poucos. Só que, desta vez, a frieza não chegou para evitar a primeira derrota na liga.
CASA PIA 2:1 FC PORTO
Seko Fofana entrou no álbum pela página certa, golo na estreia absoluta, celebração de joelhos, e o resto ficou para a contabilidade de um empate com sabor a pouco.
FC PORTO 1:1 SPORTING
À 20.ª jornada, a invencibilidade do FC Porto na liga caiu em Rio Maior, mas a tabela não virou do avesso, com os Dragões a manterem-se no topo com quatro pontos de vantagem sobre o Sporting e nove sobre o Benfica. O problema não foi a classificação, foi a sensação de que o jogo fugiu por entre os dedos num daqueles dias em que a equipa até faz quase tudo, menos o que conta. Entre linhas, há dois retratos que explicam a noite. O primeiro é o da eficácia adversária: Francesco Farioli resumiu-o com frieza, lembrando que o Casa Pia marcou“ na primeira vez” que passou o meiocampo. O segundo é o da execução portista no último terço: começou bem, criou, insistiu, mas faltou“ alguma agressividade” em detalhes que se pagam caro quando o jogo pede entrada forte e encontra uma porta blindada. Depois, o guião escreveu a parte mais cruel: o 1-0 de Larrazabal na primeira
investida e o 2-0 num autogolo de Thiago Silva à beira do intervalo. Ainda assim, o FC Porto reabriu a porta cedo na segunda parte, com Pablo Rosario a reduzir após assistência de Alberto, e empurrou o Casa Pia para trás com ocasiões suficientes para justificar o empate. Só que o jogo ficou preso entre a última decisão e o último ressalto, ainda por cima com um cartão vermelho a William Gomes já perto do fim. A leitura emocional também veio do relvado. Rosario foi duro, dizendo que aquele campo“ não serve para a Liga” e que“ é impossível” promover o campeonato português na Europa a jogar assim, mas fez questão de sublinhar a reação e o volume de oportunidades. Farioli, por seu lado, puxou pela ideia que interessa:“ Nunca fomos extraterrestres, éramos humanos quando ganhávamos e fazíamos parecer fáceis vitórias que não o eram”. Virar a página, sim, mas sem rasgar o método.
O clássico acabou como acabam os filmes que não querem dar descanso ao espectador, com o último fotograma a roubar a manchete. A tabela não mudou, o FC Porto manteve os quatro pontos de vantagem, mas esteve a segundos de deixar o rival a contar trocos, porque Seko Fofana, em noite de estreia, fez o 1-0 a meio da segunda parte e o Dragão já tinha começado a organizar a vitória na cabeça. O jogo conta-se em duas camadas: a do xadrez estratégico e a do relógio como aliado. Numa, o FC Porto procurou“ dar mate”; noutra, o Sporting foi sobrevivendo até aparecer a migalha do fim. Farioli disse-o com a frontalidade de quem não quer fazer diplomacia de sala de imprensa:“ Houve uma equipa que fez de tudo para ganhar”, e essa jogou de azul e branco. Depois, veio o momento em que o futebol tem
o descaramento de ser futebol. Penálti no último lance, Diogo Costa defende e a bola, ingrata, sobra para Luis Suárez fazer o empate já perto do minuto 100. É aqui que o sarcasmo se escreve sozinho. O Sporting anda a colecionar tempo de compensação como quem coleciona pontos e Farioli atirou o número para a mesa com gelo:“ É o sexto jogo seguido em que eles marcam no último minuto”. O balneário do FC Porto ficou com aquele travo amargo de quem esteve a segurar o jogo“ muito bem durante 97 minutos” e perdeu dois pontos num único detalhe,“ um erro” pago caro, como resumiu o treinador. Thiago Silva lembrou que“ não se ganha o campeonato num jogo”, Froholdt pediu página virada e o calendário não deu tempo para lamber feridas. Nestes jogos, o apito final não é um som, é a última bola.
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