TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
“ Não nasci portista, mas vou morrer portista”
Numa entrevista multiplataformas gravada em dois momentos, entre a Biblioteca Almeida Garrett e a cobertura da Super Bock Arena, Cláudio Ramos abre o coração sobre tudo o que mudou desde que chegou ao FC Porto e fala de exigência diária, de liderança silenciosa e de um princípio que não negoceia: se não é titular, então tem de ser“ o melhor número 2 de todos”. Sabe que não veio só para“ mais um clube”, veio para uma nova escala onde“ um empate parece o fim do mundo” e onde, mesmo sem jogar, o compromisso não baixa.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA
A chegada ao FC Porto foi, para Cláudio Ramos, menos um“ novo clube” e mais uma mudança de escala. Ainda antes de vestir de azul e branco, já tinha ouvido histórias sobre a exigência de Sérgio Conceição, a intensidade diária, a forma como o treino se vivia“ sem ser fácil lidar com ele”, sobretudo num clube que“ tem basicamente o mesmo espírito” do treinador. Mas uma coisa é ouvir falar da mística, senti-la por fora enquanto adversário, e outra, bem diferente, é entrar no balneário e perceber que ali a fasquia nunca desce. O contraste começou numa ideia simples, na normalidade dos resultados. Em Tondela, o campeonato vivia-se no registo de quem concilia vitórias, empates e derrotas como parte do caminho. As derrotas custavam-lhe, sempre custaram, mas havia uma moldura. No FC Porto, o contexto muda tudo:“ Aqui, quando concedes um empate, parece que o mundo acaba.” E é nesse espelho imediato do balneário que ele encontra, talvez pela primeira vez, a dimensão real do lugar onde está.“ Tu vês aquilo e apercebes-te imediatamente da dimensão do clube”. A vida, no Dragão, não se mede pelo que se faz de vez em quando, mede-se pelo que se exige todos os dias.“ Aqui vive-se tudo muito intensamente”, resume. E quando se entra no hábito de ganhar e de jogar para ganhar, isso não pesa, eleva:“ É a melhor coisa que há”. Também no treino a linguagem era outra. A diferença não se resumia no“ nível dos executantes”, era o ambiente global:“ A intensidade com que se treinava diariamente … nunca havia uma brincadeira”. Tudo apontava ao mesmo alvo, com uma insistência quase sem pausa:“ A vitória, a vitória, temos que ganhar, temos que ser campeões.” Cláudio di-lo com um arrependimento ao contrário, dos que doem por serem verdade:“ Quem me dera ter tido a oportunidade de chegar a este clube muito mais cedo, porque isto é que te faz crescer, é que te faz ser melhor”. Mas o impacto maior não foi a exigência, foi a mudança de papel. Cláudio Ramos vinha de uma sequência de titularidade rara, de recordes de jogos consecutivos, de protagonismo e rotinas em que a baliza era sempre dele.“ De repente, passei a ser mais um”, recorda. Mais um numa equipa com hierarquia própria e uma baliza ocupada por nomes que não se discutem.“ Foi, possivelmente, o ano mais difícil da minha carreira”, admite, sem suavizar:“ No primeiro ano nem joguei”. Entre Marchesín,
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