Anatomia do golo
GOLO REI
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES
“ Ficámos revoltados. Foi uma entrada dura, completamente desnecessária”. A equipa acusa o golpe. O Benfica reorganiza-se, alonga o jogo, trava o ímpeto portista e reduz. Mais perto do fim, quando o Dragão preparava o último assalto, chega o empate do adversário. Um murro no estômago. É então que Jesualdo Ferreira toma a decisão que muda a noite: olha para o banco e chama Bruno Moraes.“ A mensagem foi simples”, conta o avançado.“ Entra, faz o teu melhor miúdo, vai para cima deles”. Sem mapas, sem discursos, só a confiança importa quando o jogo entra nos detalhes. Bruno leva nova energia e uma ideia clara: atacar a área.“ Estava confiante, vinha de boas exibições. Não era titular, mas sempre que jogava cumpria e sentia que podia decidir. Tinha esse feeling”. Nas primeiras ações, dá profundidade e pede cruzamentos rápidos. O FC Porto volta a empurrar, a equipa acredita, o público levanta-se. E ao cair do pano aparecem o tempo e o gesto: movimento do avançado a atacar o espaço livre, salto no momento exato e um cabeceamento de desenho técnico simples e perfeito. Rede a balançar aos 92 minutos.“ Se tivesse uma oportunidade, eu ia matar o jogo, ia fazer o golo e ajudar o Porto a ganhar aquele clássico”, sintetiza Bruno. O Dragão explode num só grito. Há golos que somam pontos e há golos que mudam estados de espírito, mas aquele fez tudo: consolidou a liderança, reforçou convicções, blindou o balneário após a lesão de Anderson e deixou a mensagem certa para dentro e para fora – o FC Porto joga até ao fim. A comparação com o golo em Hamburgo, apontado quatro dias depois, torna-se inevitável.“ Foi maravilhoso”, admite,“ mas não é o meu golo típico: pé esquerdo, de longe, forte e colocado. Saiu-me. O do Benfica diz mais de mim: área, instinto, tempo de salto, decidir ali”. Em poucos minutos, o avançado cumpriu o que o treinador pedira e o que a equipa precisava:
“ Já estava com aquele feeling de que ia marcar e não precisei de muito tempo. Tinha aquele sentimento de que ia matar o jogo se tivesse uma oportunidade, ia fazer o golo e ajudar o Porto a ganhar aquele clássico.” renovar energia, fixar centrais, dar um alvo claro às bolas laterais. É o manual do ponta-delança em jogos decisivos: posicionar-se bem, atacar a trajetória e confiar no primeiro toque. Às vezes, o futebol é isso e só isso. O contexto ajuda a perceber a dimensão do momento. À partida para a oitava jornada, FC Porto, Benfica e Sporting caminhavam lado a lado. Na véspera, o Sporting deixou pontos em Aveiro e aquela vitória valia a liderança isolada e um recado aos rivais. Mesmo assim, e sobretudo assim, a equipa manteve a sobriedade que marca os grupos campeões. Havia um clássico para guardar e uma época inteira para ganhar.“ Não foi só um golo”, insiste Bruno.“ Foi um ponto de viragem”. O resto pertence ao arquivo afetivo de quem esteve nas bancadas e ao léxico simples com que os protagonistas explicam o que fazem melhor. O avançado que entrou para abanar os últimos dez minutos encontrou o momento certo, executou o gesto certo e escreveu a linha certa. É por isso que Bruno Moraes escolhe este instante como o golo de uma vida, pelo que foi e pelo que fez acontecer. Sete meses depois, o FC Porto era campeão.
Anatomia do golo
Competição
Liga Portugal, jornada 8 Jogo FC Porto-Benfica, 3-2 Estádio Estádio do Dragão Data 28 de outubro de 2006
Minuto 90’+ 2 Autor Bruno Moraes Tipo de golo cabeceamento Assistência- Relevância liderança isolada
Esta história também vive no ecrã. Veja a versão audiovisual nas plataformas digitais do FC Porto e no Porto Canal.
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