Dragões #469 Dez 2025 | Page 62

FUTEBOL
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES
A MESMA IDENTIDADE Mais do que uma curiosidade estatística, estes vinte segundos comprimidos em dois lances contam muito sobre o que o FC Porto quer ser em campo: agressivo na recuperação, vertical com bola, pronto a ferir o adversário logo no primeiro sopro de jogo. Um nasce da saída estudada, trabalhada ao pormenor no Olival; o outro nasce da capacidade de pressionar alto e transformar uma recuperação em golo antes que o jogo tenha tempo de se instalar. No fim, ficam duas imagens que o Dragão não esquecerá: Galeno a voar ao segundo poste e Gabri Veiga a rematar de primeira no coração da área. Se a matemática dos milésimos decide quem chega primeiro à história, a memória coletiva trata de garantir que há espaço para os dois na mesma moldura.

Relâmpagos à escala mundial

A nível global, o ponto de partida continua a ser o registo do Guinness World Records: em dezembro de 1998, o uruguaio Ricardo Olivera precisou de apenas 2,8 segundos para marcar pelo Río Negro frente ao Soriano, em jogo disputado no Estádio José Enrique Rodó, em San Ramón, 80 quilómetros a norte da capital Montevideu. A partir de imagens em vídeo, o Guinness validou o lance como o golo mais rápido do futebol, estabelecendo o padrão: contagem desde o apito inicial até ao momento em que a bola entra na baliza, com verificação independente do tempo. Poucos anos depois, surgiu um concorrente britânico. Em abril de 2004, Marc Burrows, avançado do modesto Cowes Sports, rematou diretamente do pontapé de saída num jogo de seniores amadores frente às reservas do Eastleigh. O vento ajudou, o guarda-redes estava adiantado e a bola entrou em cerca de 2,5 segundos, tempo registado pelo árbitro. A Federação Inglesa analisou o relatório e reconheceu o lance como o golo mais rápido de que tinha conhecimento, transformando uma tarde na Wessex League numa nota de rodapé da história do futebol. Com a generalização do vídeo de boa qualidade, a disputa apertou ainda

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mais. Em 2017, o escocês Gavin Stokes marcou pelo Maryhill contra o Clydebank, num jogo das competições juniores da Escócia, num remate direto do pontapé de saída que as imagens cronometraram em 2,1 segundos. Muitos passaram a tratá-lo como“ o mais rápido de sempre”, mas o golo nunca recebeu a mesma validação formal do Guinness, que exige documentação e verificação mais apertadas do que a simples medição televisiva. Ainda antes disso, em 2009, o saudita Nawaf Al-Abed tinha abalado a internet com um golo apontado em cerca de 2 segundos pelo Al-Hilal, também direto do pontapé de saída. Durante algum tempo foi apresentado como recorde absoluto, mas o jogo acabou por ser anulado devido à utilização irregular de jogadores, o que retirou ao lance qualquer pretensão de registo oficial. No fim, fica a ideia de que os golosrelâmpago vivem numa zona cinzenta entre a crónica e o laboratório: quanto mais rigor colocamos no cronómetro, mais percebemos que a história do mais rápido de sempre é um jogo em aberto.

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O Guinness validou o golo do uruguaio Ricardo Olivera, apontado em dezembro de 1998, como o mais rápido do futebol mundial
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