Dragões #469 Dez 2025 | Page 57

FUTEBOL
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES
Shakespeare deixou a Dinamarca marcada por uma frase sombria que o futebol reescreve agora em tecnicolor: há algo de precioso no reino da Dinamarca. Aos 19 anos, Victor Froholdt foi eleito Talento do Ano e, quase sem intervalo, subiu ao palco maior como Futebolista Dinamarquês do Ano. Entre prémios e jogos, há um fio condutor em comum: a sensação de que o FC Porto não recebeu apenas um jovem com futuro, mas um médio que já empurra o presente para a frente, como quem antecipa a jogada e a história.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA

Who

’ s there?” A pergunta que abre Hamlet podia ser repetida num relvado, quando a noite ainda não decidiu se é nervo ou promessa. Quem está aí, a chegar-se ao foco como quem muda a iluminação de uma peça? Victor Froholdt. E, desta vez, a frase célebre sobre a Dinamarca pede uma cirurgia mínima e certeira: onde Shakespeare escreveu“ podre”, o futebol escreve“ precioso”. A 4 de dezembro, o médio do FC Porto foi eleito Talento do Ano na Dinamarca, distinção atribuída em parceria entre a federação DBU e a associação de futebolistas Spillerforeningen e decidida pelos próprios jogadores. Não é um prémio de montra: é um voto de balneário e de relvado. É quem o enfrenta a admitir que, naquele espaço entre o primeiro toque e a decisão, Froholdt já joga com uma vantagem invisível. Ao entrar na lista de vencedores, sucede a Patrick Dorgu( 2024) e a Rasmus Højlund( 2023), como se a Dinamarca estivesse a passar o testemunho sem precisar de levantar a voz. E o guião não fecha com a juventude. O mesmo Froholdt foi eleito Futebolista Dinamarquês do Ano 2025, superando
Morten Hjulmand( Sporting) e Pierre- Emile Højbjerg( Olympique de Marselha). Foi a passagem rápida do papel de“ promessa” para a lista onde se discutem influências, não intenções, e com um detalhe histórico a dar relevo à cena: tornou-se apenas o segundo atleta a juntar, no mesmo ano, Talento do Ano e Futebolista do Ano, algo que só tinha acontecido com Simon Kjær, em 2009. Em linguagem simples: não foi apenas o futuro a ser elogiado, foi o presente
Há jogadores que crescem pela faísca, mas Froholdt parece crescer pela regularidade. Não vive à procura do lance de capa, vive a organizar o que não aparece no resumo. Fecha linhas como quem fecha portas, recupera como quem antecipa, entrega como quem escolhe. Tem pulmão, mas não é correria, é critério em movimento.
a ser comparado e, no fim, coroado. No Dragão, a raridade começou a ganhar forma em julho, quando o FC Porto formalizou a contratação ao FC København: 20 milhões de euros, mais até 2 milhões em objetivos, contrato até 2030, cláusula de 85 milhões e 10 % das mais-valias futuras reservadas para os dinamarqueses. Um acordo com números, mas sobretudo com uma mensagem: aqui, o tempo não se pede, conquista-se. E ele trouxe bagagem recente, também ela com peso, depois de ter conquistado campeonato e Taça na Dinamarca antes de mudar de latitude. Agosto respondeu com uma pressa pouco habitual para um recém-chegado. Nas quatro primeiras jornadas da Liga, Froholdt foi titular, marcou ao Gil Vicente e assistiu contra Casa Pia e Sporting. No fim do mês, fez o pleno: Médio do Mês, Jovem do Mês e Jogador do Mês. Três prémios que funcionam como diagnóstico. O dinamarquês não entrou apenas na equipa, entrou no ritmo. E o ritmo, no FC Porto, nunca é um convite, é uma exigência. Há jogadores que crescem pela faísca, mas Froholdt parece crescer pela regularidade. Não vive à procura do lance de capa, vive a organizar o que não aparece no resumo. Fecha linhas como quem fecha portas, recupera como quem antecipa, entrega como quem escolhe. Tem pulmão, mas não é correria, é critério em movimento. O ano também o empurrou para fora das fronteiras do clube. Em 2025, estreouse pela seleção principal em março, justamente frente a Portugal, e somou a primeira titularidade em setembro. Pelo meio, o nome ganhou dimensão europeia ao aparecer entre os finalistas do Golden
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