Dragões #468 Nov 2025 | Page 38

DEFESA DO MÊS
NOVEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES

O SENHOR DO TEMPO

Se há jogadores que medem o jogo em metros, Jan Bednarek mede-o em responsabilidade. Enquanto uns avançam no terreno, o polaco sobe a fasquia, organiza, decide, segura. Com ele, o FC Porto parece mais adulto. Com ele, o FC Porto sofreu apenas um golo em cinco jogos no período compreendido entre setembro e outubro. Ele é o Defesa do Mês da Liga Portugal.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA

Jan Bednarek chegou ao Dragão com a serenidade de quem já viu tempestades na Premier League e trouxe ao FC Porto aquilo que não se compra no mercado: paz no meio do trânsito. Aos 29 anos, o internacional polaco não precisa de longos discursos, coloca a linha no sítio, afina o bloco e marca o momento de pisar o travão ou de carregar no acelerador. Setembro e outubro foram a sua carta de apresentação e a Liga Portugal tratou do resto, elegendo-o Defesa do Mês num período em que os azuis e brancos consolidaram a liderança e o estatuto de defesa menos batida. Formado no Lech Poznań, educado no rigor polaco e graduado em Inglaterra, Bednarek não aterrou no Porto para aprender a profissão: veio para a ensinar. Traz a escola do choque e do timing, mas prefere vencer lances pela cabeça dele. Há centrais que impõem presença, mas Jan impõe silêncio. O avançado olha, mede, pensa e quando se apercebe a bola já está a dois passes de distância, redonda, limpa, pronta para o corredor certo. Não é o herói do resumo televisivo, mas é o autor invisível do plano, e isso, no Dragão, vale ouro. A química com Jakub Kiwior ajuda a explicar a recuperação da tranquilidade. Dois polacos, perfis complementares: Bednarek dita a linha e o tempo; Kiwior, canhoto de passada larga, dá saída, cobre grandes espaços e acelera a construção. É uma dupla com cumplicidade e vocação para durar e que até pode revelar Kiwior como o melhor dos dois em alguns princípios do jogo, mas não há ciúmes no assunto, porque, para Bednarek, competição saudável é combustível. Há também a tal liderança que dispensa megafone. O polaco conversa enquanto organiza, encurta enquanto orienta e protege os mais jovens enquanto empurra a equipa para a frente. Quando o jogo aquece, ajusta a profundidade, fecha o espaço entre linhas e faz o primeiro passe com a frieza de quem conhece os atalhos. A consistência que evidenciou em setembro e outubro explica melhor do que qualquer adjetivo a razão pela qual a equipa parece mais adulta quando ele está em campo. No balneário, não promete mundos e fundos, promete coração e critério. No relvado, cumpre com leitura acima da média, duelos aéreos com assinatura e uma primeira fase de construção que dá ao FC Porto a segurança de sair a jogar sem perder identidade. É esse pacote – experiência, comando e uma estranha habilidade para transformar o caos em rotina – que faz de Jan Bednarek mais do que um reforço. Ele é uma âncora.

38