Contemporânea Contemporânea #9 | Page 17

Dev-ir para (re)exist-ir

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Recreando as fronteiras. Re-significando as marcas que limitam minha corpa, minha identidade, mas que me permitem através da criatividade criar linhas de fuga dentro da hetero-cis-normatividade cativante que nos quer capturar.

Escrevo desde a fronteira de imigrante sudaca¹, gorde e trans não-binárie para tentar pôr em palavras experiências de um dev-ir que iniciou faz 5 anos e que continua e continuará dentro das (im)possibilidades do finito ilimitado.

Fronteiras que seriam físicas/simbólicas alimentadas e reforçadas através da linguagem e da repetição do chamado cotidiano. Fronteiras divisórias, mas ao mesmo tempo comunicadoras, como pontes entre as diferenças. Mesmo que as fronteiras limitem, marquem um território geográfico e simbólico/imaginário, demarcando até onde um corpo pode chegar ou deveria chegar, também pode ser um portal de novas ou diferentes formas de re-existência de re-habitar o(s) território(s). Mujeres al borde, uma ONG (organização não governamental) Colombiana, re-significa:

forma geral. Pois são criados diferentes mecanismos para atingir, vigiar e punir essas propostas de territórios imóveis.

Mas outros territórios são possíveis. À continuação serão descritos brevemente alguns dos cenários que (me) compõem, como rizomas de uma cartografia inacabada que algunes chamarão de vida.

Cenário 1: A partir dos 14 anos aproximadamente, comecei a assistir todo seriado, filme, documentário, afins, relacionado com a temática lésbica/sapatônica/tortillera/arepera/camiona (faço uso de algumas das categorias identitárias ou não, possíveis e construídas de forma local/regional na américa latina, pela sua importância na estruturação da própria identidade social, político-econômica que estas podem representar e para chamar à atenção da pluralidade linguística) disponíveis na internet. Um movimento feito para entender que as formas de desejo afetivo-erótico-sexual existentes para além da heterossexualidade. Uma heterossexualidade que estava cotidianamente materializada nas ruas, na televisão, nas revistas, periódicos, no discurso religioso, escolar, entre outros.

Cenário 2: Decido ir para o Brasil para fazer mestrado em Saúde Coletiva e fazer pesquisa sobre a saúde trans. Entre leituras e entrevistas, entre visitas de ONG’s e grupos LGBTIs, feministas e de mulheres me reparo pensando na minha própria identidade de gênero, me questionando, me desafiando, e brincando com o aprendido/lido.

Cenário 3: Participo de uma oficina de Drag King administrada por Tatiana Lionço no Fazendo Gênero 10 - Desafios Atuais dos Feminismos (2013). Alejandro, meu álter ego foi se fortalecendo e encontrando espaços onde se sentia seguro e cômodo de re-aparecer.

Cenário 4: Alejandro foi re-aparecendo em diferentes territórios lúdico-acadêmicos, performáticos e íntimos. Até que um dia uma amiga me comentou: ‘parece que Alejandro agora está sempre contigo’. Afetivamente, essa frase ecoou em mim profundamente, me fez dar mais um movimento, incorporar Alejandro ao meu dia-a-dia. Entre leituras e blogs chegou aos meus olhos a palavra não binárie, como uma forma possível de identificação. Como comenta Judith Butler (1997), o que não se nomeia não existe, a palavra como produtora da realidade e das subjetividades. Inicie um processo de materialização através da linguagem desde esse outro lugar que minha corpa agora está habitando, às margens dos dois gêneros passiveis de existência.

Finalmente, estes cenários são percursos e percussores da minha trajetória pessoal, mas também como médique, pesquisadore e ativista. Assim como, de uma visão ético-(micro/macro)política que colore as minhas reflexões entorno do normal e patológico, do controle e regulação das corpas pela sociedade hetero-patriarcal, cis, branca, magra que nos estrutura e das (in)visibilidades que demarcam os territórios que habitam as corpas fora dos binarismos.

Que nos permitamos sermos desobedientes, discordantes e dissidentes para resistir e viver dignamente.

[...] o direito de não ser parte de nenhum centro, o direito de viver nas margens onde se dão os cruzamentos que a cultura nos tem proibido, o direito de construir múltiplas identidades, móveis, difusas, entrelaçadas, o direito de renunciar à formas de vida impostas²’

(tradução livre feita pela pessoa autora do texto)

“Normal é uma ilusão: O que é normal para uma aranha é um caos para uma borboleta”

Mortícia Addams

atingir, vigiar e punir essas propostas de territórios imóveis.

Mas outros territórios são possíveis. À continuação serão descritos brevemente alguns dos cenários que (me) compõem, como rizomas de uma cartografia inacabada que algunes chamarão de vida.

Cenário 1: A partir dos 14 anos aproximadamente, comecei a assistir todo seriado, filme, documentário, afins, relacionado com a temática lésbica/sapatônica/tortillera/arepera/camiona (faço uso de algumas das categorias identitárias ou não, possíveis e construídas de forma local/regional na américa latina, pela sua importância na estruturação da própria identidade social, político-econômica que estas podem representar e para chamar à atenção da pluralidade linguística³) disponíveis na internet. Um movimento feito para entender que as formas de desejo afetivo-erótico-sexual existentes para além da heterossexualidade. Uma heterossexualidade que estava cotidianamente materializada nas ruas, na televisão, nas revistas, periódicos, no discurso religioso, escolar, entre outros.

Cenário 2: Decido ir para o Brasil para fazer mestrado em Saúde Coletiva e fazer pesquisa sobre a saúde trans. Entre leituras e entrevistas, entre visitas de ONG’s e grupos LGBTIs, feministas e de mulheres me reparo pensando na minha própria identidade de gênero, me questionando, me desafiando, e brincando com o aprendido/lido.

Cenário 3: Participo de uma oficina de Drag King4 administrada por Tatiana Lionço5 no Fazendo Gênero 10 - Desafios Atuais dos Feminismos (2013). Alejandro, meu álter ego foi se fortalecendo e encontrando espaços onde se sentia seguro e cômodo de re-aparecer.

Cenário 4: Alejandro foi re-aparecendo em diferentes territórios lúdico-acadêmicos, performáticos e íntimos. Até que um dia uma amiga me comentou: ‘parece que Alejandro agora está sempre contigo’. Afetivamente, essa frase ecoou em mim profundamente, me fez dar mais um movimento, incorporar Alejandro ao meu dia-a-dia. Entre leituras e blogs chegou aos meus olhos a palavra não binárie, como uma forma possível de identificação. Como comenta Judith Butler (1997), o que não se nomeia não existe, a palavra como produtora da realidade e das subjetividades. Inicie um processo de materialização através da linguagem desde esse outro lugar que minha corpa agora está habitando, às margens dos dois gêneros passiveis de existência.

Finalmente, estes cenários são percursos e percussores da minha trajetória pessoal, mas também como médique, pesquisadore e ativista. Assim como, de uma visão ético-(micro/macro)política que colore as minhas reflexões entorno do normal e patológico, do controle e regulação das corpas pela sociedade hetero-patriarcal, cis, branca, magra que nos estrutura e das (in)visibilidades que demarcam os territórios que habitam as corpas fora dos binarismos.

Que nos permitamos sermos desobedientes, discordantes e dissidentes para resistir e viver dignamente.

Este imaginário coletivo invisibiliza e/ou apaga as diferenças, a pluralidade e reafirma uma homogeneidade e igualdade ilusória, bastante violenta para todas as pessoas de forma geral. Pois são criados diferentes mecanismos para atingir, vigiar e punir essas propostas de territórios imóveis.

Mas outros territórios são possíveis. À continuação serão descritos brevemente alguns dos cenários que (me) compõem, como rizomas de uma cartografia inacabada que algunes chamarão de vida.

Cenário 1: A partir dos 14 anos aproximadamente, comecei a assistir todo seriado, filme, documentário, afins, relacionado com a temática lésbica/sapatônica/tortillera/arepera/camiona (faço uso de algumas das categorias identitárias ou não, possíveis e construídas de forma local/regional na américa latina, pela sua importância na estruturação da própria identidade social, político-econômica que estas podem representar e para chamar à atenção da pluralidade linguística) disponíveis na internet. Um movimento feito para entender que as formas de desejo afetivo-erótico-sexual existentes para além da heterossexualidade. Uma heterossexualidade que estava cotidianamente materializada nas ruas, na televisão, nas revistas, periódicos, no discurso religioso, escolar, entre outros.

Cenário 2: Decido ir para o Brasil para fazer mestrado em Saúde Coletiva e fazer pesquisa sobre a saúde trans. Entre leituras e entrevistas, entre visitas de ONG’s e grupos LGBTIs, feministas e de mulheres me reparo pensando na minha própria identidade de gênero, me questionando, me desafiando, e brincando com o aprendido/lido.

Cenário 3: Participo de uma oficina de Drag King administrada por Tatiana Lionço no Fazendo Gênero 10 - Desafios Atuais dos Feminismos (2013). Alejandro, meu álter ego foi se fortalecendo e encontrando espaços onde se sentia seguro e cômodo de re-aparecer.

Cenário 4: Alejandro foi re-aparecendo em diferentes territórios lúdico-acadêmicos, performáticos e íntimos. Até que um dia uma amiga me comentou: ‘parece que Alejandro agora está sempre contigo’. Afetivamente, essa frase ecoou em mim profundamente, me fez dar mais um movimento, incorporar Alejandro ao meu dia-a-dia. Entre leituras e blogs chegou aos meus olhos a palavra não binárie, como uma forma possível de identificação. Como comenta Judith Butler (1997), o que não se nomeia não existe, a palavra como produtora da realidade e das subjetividades. Inicie um processo de materialização através da linguagem desde esse outro lugar que minha corpa agora está habitando, às margens dos dois gêneros passiveis de existência.

Finalmente, estes cenários são percursos e percussores da minha trajetória pessoal, mas também como médique, pesquisadore e ativista. Assim como, de uma visão ético-(micro/macro)política que colore as minhas reflexões entorno do normal e patológico, do controle e regulação das corpas pela sociedade hetero-patriarcal, cis, branca, magra que nos estrutura e das (in)visibilidades que demarcam os territórios que habitam as corpas fora dos binarismos.

Que nos permitamos sermos desobedientes, discordantes e dissidentes para resistir e viver dignamente.

Ale (Ana Maria) Mujica Rodriguez