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Oficina de Escrita Criativa LGBT+: um relato
Ti Ochoa
O objetivo deste relato é descrever as atividades realizadas durante uma oficina de Escrita Criativa para pessoas LGBT+ que aconteceu no dia 19/10/2018, das 14:00 – 18:00 na 17ª Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFSC (SEPEX). No final, apresentarei produções feitas em dupla, sem citar o nome dos participantes, exemplos reais e criativos que foram produzidos na oficina.
O minicurso, composto por 15 pessoas, foi ministrado por mim, Ti Ochôa, e uma colega igualmente trans que cursa Artes Cênicas na UFSC, Zara Dobura. Somos amigas há algum tempo e mesmo sendo eu da Literatura e ela das Artes Cênicas, academicamente, transitamos entre as duas áreas escrevendo, performando, atuando, cantando, dançando, lendo e produzindo. Para nós, tanto a Literatura como as Cênicas são áreas artísticas e por isso pensamos em integra-las para ministrar esse minicurso de Escrita Criativa.
Antes de descrever o que foi o minicurso, gostaria de fazer algumas considerações. Ministrar uma oficina de Escrita Criativa é romper com os moldes tradicionais de escrita, é pensar a escrita como algo fluído, livre e flexível. Além disso, ministrar uma oficina de Escrita Criativa voltada para pessoas LGBT+ é romper com os espaços majoritariamente formados por pessoas cisgêneras e heterosexuais. É também proporcionar um espaço seguro de acolhimento para que quem participe se sinta à vontade para escrever sem precisar de antemão provar conhecimento e habilidades linguísticas para ninguém.
A intenção do minicurso não foi – e isso foi explicado logo no início dele – corrigir o que as pessoas escreviam ou eleger quem escrevia “melhor”.
pessoas escreviam ou eleger quem escrevia “melhor”. Na condição de linguista e professora, abandono as noções de certo e errado para pensar outras maneiras de escrever, falar e se comunicar sem qualificá-las como melhores ou piores, mas apenas como diferentes. Nessas diferenças encontro tantas belezas e singularidades linguísticas que estão ligadas a marcadores geográficos, de faixa-etária, de sexualidade, de gênero, de raça, de classe, dentre tantos outros, que se torna impossível pensar a escrita e a língua como uma mera questão de certo ou errado.
A população LGBT+ é diversa, envolve pessoas binárias ou não, trans, cisgêneras, brancas, negras, indígenas, entre outras e por isso devemos pensar nas discussões linguísticas que visam desconstruir o racismo, o sexismo, a homofobia e a transfobia que são perpetuados por meio da língua. São inegáveis as maravilhosas e desafiadoras contribuições linguísticas da população LGBT+, como o pajubá – variação linguística ligada diretamente às travestis –, subversão da generalização do masculino, o uso flexível dos marcadores de gênero o/a, a invenção de outros como o x/e/@, a desmarcação de gênero quando ele não é necessário, entre outras mudanças. Entretanto, algumas dessas contribuições não se relacionam somente com o movimento LGBT+, elas se entrelaçam com as lutas antirracista e feminista que também são feitas a partir de pessoas cisgêneras heterossexuais, não pertencentes ao grupo LGBT+.
Quando divulguei a oficina, ofertamos 25 vagas, das quais 15 foram preenchidas. Estiveram presentes lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans binárias e não-binárias, negras e brancas. Ao ver cada participante que entrava na sala, eu e Zara ficávamos cada vez mais felizes ao encontrar a diversidade de corpos que ocupavam as cadeiras. Além das questões de gênero, raça e sexualidade, também havia corpos gordos e magros. Tanta gente linda e diferente junta só poderia render uma experiência incrível como que foi o minicurso.