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cores, brincadeiras, espaços sociais, roupas etc., de acordo com o gênero, que dentro dessa ideologia é definido pelo sexo biológico.
Quando a Ministra ataca a “ideologia de gênero”, ao dizer para deixar “nossos meninos serem meninos e nossas meninas serem meninas” ela aciona um dispositivo de controle sobre o gênero. Atualizando a disputa ideológica, ancorada em discursos normativos e conservadores sobre o gênero e sexualidade e colocando a “preocupação” com a educação das crianças como argumento nesse debate.
Maria Rita César e André Macedo Duarte ainda acrescentam em sua análise que enquanto nos EUA e na França, por exemplo, há uma máxima proteção em relação à criança e à infância, no Brasil a família nuclear, ocupa o cerne das preocupações conservadoras, visto que o casamento entre pessoas do mesmo gênero, vulgo casamento gay, foi a primeira política a ser ameaçada antes mesmo de o atual governo assumir a direção do país. O conceito de família é um dos principais conceitos em disputa entre conservadores e progressistas. Assim como, o pronunciamento feito pela Ministra também coloca o discurso sobre as crianças como outro ponto central nessa disputa.
Os embates político-morais não retratam só questões do cenário nacional, mas também refletem o avanço conservador em termos das políticas internacionais, a “caça à ideologia de gênero” não é um projeto só de âmbito nacional. A ascensão dos discursos de intolerância contra as minorias é um projeto extenso, de ordem global.
Se o ano de 2019 iniciou com os pronunciamentos da Ministra Damares Alves, o acionamento do pânico moral através das mídias sociais seguiu como estratégia política ao longo do ano. Por fim, no penúltimo mês deste ano conturbado e caótico, marcado por uma amplificação dos discursos conservadores, a Ministra, através de uma postagem nas redes sociais, afirma que irá criar um canal de denuncia para questões contra a moral, religião e ética nas escolas.
Ao retomar o discurso sobre a família e sua exagerada preocupação com as crianças, tensiona o ambiente escolar, outro dos campos centrais nessa disputa ideológica. Em certa medida, essa retomada dos discursos de conservação dos ideais de família, do exagero sobre o que as crianças podem ou não aprender, a moralização dos discursos sobre gênero e sexualidade, a manifestação desses discursos nas redes sociais, etc., parecem ser das estratégias mais utilizadas nesse novo momento político que imprime o cenário político brasileiro atual. Se de um lado podem ser apenas discursos difusos, geradores de pânico, utilizados na disputa de sentidos. Mas, cabe ressaltar que são também uma atualização dos dispositivos de controle sobre gênero e sexualidade que colocam sob ameaça a cidadania, e sobretudo a vida, das populações vulnerabilizadas socialmente, incluindo a população trans, diante dessa “nova era” que se constrói em cima do pânico moral.
Assim, fica perceptível como as questões relacionadas ao gênero, sexualidade e diversidade sexual estão no centro do palco das disputas políticas-ideológicas dos dias de hoje. Assim, gênero e a sexualidade são utilizados como dispositivo de pânico moral, impactando cultural e estruturalmente na ordem social.
Nesse caminho, pode-se observar como o discurso da Ministra reafirma estereótipos de gênero (meninos de azul e meninas de rosa) e pressupõem um modelo em que gênero é determinado pelo sexo biológico. Esse discurso, por sua vez, é utilizado para negar a existência de pessoas trans e de que gênero é uma construção social. Dessa forma percebe-se que, não explicitamente, a Ministra Damares demarca um posicionamento de ataque à população trans².
Com intuito de rebater as críticas recebidas, a Ministra retorma os ataques à “ideologia de gênero” afirmando que esta acaba por confundir a cabeça das crianças. E reafirma: “deixem as meninas serem meninas, deixem os meninos serem meninos”. Em desacordo com a Ministra, é precisamente essa rigidez na concepção de gênero que determina uma cor específica para cada um que pode ser compreendida como uma ideologia de gênero e que está bastante naturalizada. A normatização das identidades de gênero se preocupa em determinar o que é masculino ou feminino, e pode estar diretamente relacionada aos elevados índices de violência contra pessoas trans. De acordo com o dossiê publicado pela ANTRA³ em 2019 o Brasil ocupa o primeiro lugar no hanking de assassinatos da população trans, seguido de México, Estados Unidos e Colômbia.
Assim, a “preocupação” em combater a tão temida “ideologia de gênero” serve como disfarce de uma imposição e reafirmação de um modelo de “ideologia de gênero”. Em outras palavras, já vivemos uma ideologia de gênero bem definida por normas que determinam cores, brincadeiras, espaços sociais, roupas etc., de acordo com o gênero, que dentro dessa ideologia é definido pelo sexo biológico.
Quando a Ministra ataca a “ideologia de gênero”, ao dizer para deixar “nossos meninos serem meninos e nossas meninas serem meninas” ela aciona um dispositivo de controle sobre o gênero. Atualizando a disputa ideológica, ancorada em discursos normativos e conservadores sobre o gênero e sexualidade e colocando a “preocupação” com a educação das crianças como argumento nesse debate.
Os embates político-morais não retratam só questões do cenário nacional, mas também refletem o avanço conservador em termos das políticas internacionais, a “caça à ideologia de gênero” não é um projeto só de âmbito nacional. A ascensão dos discursos de intolerância contra as minorias é um projeto extenso, de ordem global.
Se o ano de 2019 iniciou com os pronunciamentos da Ministra Damares Alves, o acionamento do pânico moral através das mídias sociais seguiu como estratégia política ao longo do ano. Por fim, no penúltimo mês deste ano conturbado e caótico, marcado por uma amplificação dos discursos conservadores, a Ministra, através de uma postagem nas redes sociais, afirma que irá criar um canal de denuncia para questões contra a moral, religião e ética nas escolas.
Ao retomar o discurso sobre a família e sua exagerada preocupação com as crianças, tensiona o ambiente escolar, outro dos campos centrais nessa disputa ideológica. Em certa medida, essa retomada dos discursos de conservação dos ideais de família, do exagero sobre o que as crianças podem ou não aprender, a moralização dos discursos sobre gênero e sexualidade, a manifestação desses discursos nas redes sociais, etc., parecem ser das estratégias mais utilizadas nesse novo momento político que imprime o cenário político brasileiro atual. Se de um lado podem ser apenas discursos difusos, geradores de pânico, utilizados na disputa de sentidos. Mas, cabe ressaltar que são também uma atualização dos dispositivos de controle sobre gênero e sexualidade que colocam sob ameaça a cidadania, e sobretudo a vida, das populações vulnerabilizadas socialmente, incluindo a população trans, diante dessa “nova era” que se constrói em cima do pânico moral.