Suas obras sobre política – aquilo que esta autora tem de mais importante e original – continuam sendo o mote de inumeráveis apreciações e críticas. No entanto, não somente sua pura argumentação em termos de política chama a atenção dos seus leitores, mas também uma espécie de força criativa presente em seus escritos. Uma força que desafia a lógica analítica e envolve seu interlocutor em frases de efeito cheias de significado e um tipo de retórica literária rara entre intelectuais. Arendt não desejava o domínio da frieza e objetividade de raciocínio. Se suas considerações filosóficas às vezes carecem de precisão analítica e definição conceitual, provavelmente não é por falha sua, mas eventualmente pela escolha deliberada de um estilo de escrita. Há um visível impulso em direção à beleza literária em seu pensamento e em seus textos. E este certamente não surge à toa, mas antes é resultado do apreço da autora pela força que as palavras trazem junto de si e pela importância conferida à beleza de uma obra.
O efeito exercido pelos bardos, contadores de estórias do mundo antigo tomou conta da própria Arendt que também desenvolveu uma espécie de storytelling já na década de 1930, após concluir sua tese de doutorado a respeito do conceito de amor em Santo Agostinho. Arendt, que já havia sentido os efeitos de ser uma judia na sociedade alemã do século XX desde criança, conta-nos, por meio de uma narração, fruto de volumosa coleta bibliográfica e análise de correspondências, a história de Rahel Varnhagen5 , uma judia no
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período do Romantismo alemão. Mais do que somente um drama pessoal marcado por uma grande desilusão amorosa, traça o retrato detalhado dos séculos XVIII e XIX ambientado em dois salões berlinenses dirigidos pela própria Rahel e frequentado pelos idealizadores de boa parte da literatura alemã proeminente da época, como é o caso dos irmãos Schlegel e de suas consortes, amigas de Rahel. Para além disso, Arendt narra a admiração da anfitriã com relação a Goethe e outros nomes de destaque, como os irmãos von Humboldt. No entanto, mais do que chamar a atenção para personalidades importantes daquele cenário, nossa autora se atenta para a situação de alguns judeus alemães daquele período - que exerciam papéis proeminentes em meio a sociedade cultural e econômica, mas desde então eram desprovidos de direitos políticos. Arendt já enxergava em Rahel Varnhagen a figura da pária que mais tarde talvez caberia a si própria.
Não somente a narração já fazia parte do metier de Arendt quando jovem, mas também as poesias. Elas compunham o cenário arendtiano desde seu período de juventude e se intensificaram depois do seu ingresso na Universidade e do seu relacionamento com Martin Heidegger. Os 71 poemas de Arendt escritos ao longo de sua vida estão longe de atingirem o teor da métrica perfeita e da riqueza de vocabulário dos grandes mestres da poesia alemã, mas são, sem dúvida um dos meios privilegiados pelo qual a autora se relacionava com o mundo. A elaboração dos próprios
Tudo declina
enquanto cresce a escuridão.
Não me domina —
deve ser o curso da vida.
(Cansaço foi escrito quando Hannah Arendt tinha 17 anos.)
O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não poss
O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não posso deixar
Trecho do poema Cansaço escrito por Hannah Arendt
CULTURA E SOCIEDADE