Contemporânea Contemporânea #7 | Page 6

“Dos poetas devemos esperar a verdade e não dos filósofos, de quem esperamos o pensar”1 :

Hannah Arendt como poetisa

Daiane Eccel

A citação intrigante que dá título ao nosso breve artigo pode deixar ensimesmado todo leitor que, de alguma forma, deposita suas esperanças e pretensões de verdade no âmbito da filosofia ou mesmo da ciência. Por outro lado, para aquele que algum dia já se deparou com as leituras de Hölderlin, o poeta-filósofo, ou posteriormente de Heidegger, tal afirmação não causa estranheza. Este parece ser exatamente o caso da autora da frase, Hannah Arendt, ex-aluna de Martin Heidegger e Karl Jaspers, amiga dos poetas Walter Benjamin, Hermann Broch, Isak Dinesen, Wystan Auden, Randall Jarrell e melhor amiga de Mary Mcarthy, uma das renomadas romancistas americanas. Desde muito jovem, como é conhecido por todos os seus biógrafos, Arendt aprecia com algum grau de intensidade aquilo que esteticamente lhe compraz. Isso fica evidente quando notamos seu apreço pelo aprendizado da língua e dos poemas gregos decorados e recitados por ela, seu interesse por filologia grega e latina, a leitura de clássicos da literatura mundial como Shakespeare e Dostoievsky, sua familiaridade com Kafka, a não menos importante lição de Heidegger, influenciado por Hölderlin, para quem filosofia e poesia trilham o mesmo caminho. Diferente do que muitos possam pensar, não se trata apenas de mera erudição, já que um erudito pode tornar meramente técnico todo seu processo de formação. Para Arendt, trata-se de algo que é bem expresso por Irmela von Lühe em seu texto sobre os poemas arendtianos lançados na Alemanha em 2015 e ainda inéditos em

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português2: “to learn by heart” ou “apprendre par coeur” (2015, p. 87)3 , ou seja, aquilo que tem um efeito sobre o coração, sobre as emoções e sentimentos de quem aprende. Não estamos, por isso, diante das velhas lições aristotélicas da Poética? Poesia e literatura exercem um efeito visivelmente emotivo, formativo, construtivo e criativo sobre nossa autora e isso não somente em nível intelectual, mas na própria relação que ela desenvolveu com o mundo e em seus escritos sobre ele. Se, para Arendt, alguns de seus amigos poetas e em especial Walter Benjamin, pensava poeticamente4 , o mesmo parece valer para ela própria. As palavras de Rolf Hochhut (citado por Von der Lühe, 2015, p. 87) não mentem: há uma “força poética” nas obras de Arendt e isso tem a ver com o fato de que “ela era plenamente uma literata”.

As palavras de Rolf Hochhut (citado por Von der Lühe, 2015, p. 87) não mentem: há uma “força poética” nas obras de Arendt e isso tem a ver com o fato de que “ela era plenamente uma literata”.