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Bibliotecas são vistas como lugares austeros, espaços onde se trava uma
luta pessoal e silenciosa no esforço de aquisição do conhecimento, o qual
descansa, monumental, em volumes organizados em fileiras, soldados de um
secular exército, tesouros descansando sob baús de couro e papel. Em quase
todos os filmes em que instituições de ensino (geralmente estadunidenses)
são mostradas, há sempre alguém a reprimir conversas e barulhos, como se
o conhecimento só pudesse ser construído em profundo isolamento. Como
esses são os filmes que a maioria das pessoas tem a chance de ver em seus
televisores e aparelhos digitais, esta é a imagem que se torna consensual
sobre bibliotecas: lugar de leitura em silêncio, de conhecimento individual-
mente trabalhado. É como se a biblioteca fosse um lugar em que se estuda a
vida, mas no qual a vida, em toda sua energia e confusão, tivesse que andar
na ponta dos pés, para não perturbar ninguém.
Mas aí é dia do Ciência, café e cultura na biblioteca do CEFET-MG . Geralmen-
te no Campus I, mas nem sempre. Vai ter gente conversando, animadamente,
à espera do início do evento. Risos, agitos, cadeiras sendo ajeitadas, mesas
aproximadas. Ao fundo, o lanche sendo arranjado: salgadinhos, refrigerantes,
sucos e café, claro, porque essa energia toda precisa de combustível.
Começam as apresentações, mas o silêncio não volta a imperar. As pessoas
convidadas falam ao microfone, para serem mais bem ouvidas, ao centro de
uma roda, girando corpos e cadeiras, encarando os diferentes olhares que
lhes sondam. Enquanto falam, um outro nível de interação está ocorrendo:
tablets circulam entre as pessoas, levados pela equipe do projeto; palavras
são virtualmente alinhadas, perguntas construídas. Uma tela gigante mos-
tra, em tempo real, as interações entre os diferentes tablets e a fala das
pessoas convidadas. Os microfones também circulam. Algumas pessoas pre-
ferem expressar suas questões pela fala. As pessoas à frente da coordenação
selecionam perguntas e comentários feitos on-line. Gente levanta o tempo
todo para se servir do lanche, tecendo comentários e trocando impressões no
caminho, testando perguntas antes de torná-las públicas.
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