Caderno de Resumo do III SIICS Caderno de Resumos do III SIICS | Page 221

Página | 221 AS RÃS DE ARISTÓFANES E OS DIONÍSIOS DE NIETZSCHE: DISFARCE, CTONISMO E RECONCILIAÇÃO Brenda dos Santos Menezes Orientação: Profa. MSc. Ellen Caroline Vieira de Paiva RESUMO: O trabalho consiste em uma demonstração hermenêutica das relações entre as imagens de Dionísio na peça As Rãs (405 a.C.), de Aristófanes, com as expressões que Nietzsche identifica nesse deus em sua filosofia. A partir dessa demonstração, defende-se que tais expressões tendem a se consolidar como conceitos em diferentes fases do pensamento nietzschiano e que tais conceitos sejam, precisamente: disfarce (Verkleidung, no sentido de vestimenta, fantasia), ctonismo (Erde, terra) e reconciliação (Versöhnung). O enredo de As Rãs se faz claro quanto a esses três aspectos: há cenas de disfarce de Dionísio no caminho rumo ao Hades, bem como momentos de tensão harmônica entre o humano e o divino, o masculino e o feminino, o cômico e o trágico. O jovem Nietzsche parece encontrar afinidade com a crítica que Aristófanes dirige ao eruditismo textual das peças de Eurípedes. Na conferência sobre Sócrates e a tragédia (1870) constam referências à peça aristofânica que ilustram a crítica do então professor de filologia clássica ao eruditismo acadêmico de seu tempo. Para além desse texto, o filósofo citará Aristófanes em toda sua obra, na maioria das vezes em relação aos aspectos supracitados. A afinidade de Nietzsche com essa visão aristofânica de Dionísio parece coincidir com suas ideias de “segunda natureza” (disfarce) nos âmbitos da moral e da cultura, da terra como espaço “demasiado humano” (ctonismo) e da reconciliação entre arte e natureza nas reflexões sobre a tragédia. A relevância dessa demonstração consiste em evidenciar o modelo dionisíaco construído por Nietzsche e sua aplicação no enfrentamento do problema ético-estético da dor. Dionísio é o deus híbrido dotado de vivências trágicas e cômicas, bem como de habilidades de recriação de condições sempre novas de existência. Na obra de Nietzsche esse deus consiste em um modelo conceitual para que se possa pensar o humano em suas limitações e possibilidades no mundo da cultura. Desta forma, o desenvolvimento de uma relação de tensão entre comédia e tragédia como traço característico de uma projeção criativa de tipo humano possibilita uma avaliação do que há de cotidiano (cômico) e significativo (trágico) na experiência do sofrimento. Através do cultivo de virtudes da terra (ctônicas), pode- se falar na produção artística de uma segunda natureza no homem que lhe possibilite a reconciliação consigo mesmo no mundo em que vive. Palavras-chave: Nietzsche; disfarce, ctonismo; reconciliação.