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AS RÃS DE ARISTÓFANES E OS DIONÍSIOS DE NIETZSCHE: DISFARCE,
CTONISMO E RECONCILIAÇÃO
Brenda dos Santos Menezes
Orientação: Profa. MSc. Ellen Caroline Vieira de Paiva
RESUMO: O trabalho consiste em uma demonstração hermenêutica das relações entre as
imagens de Dionísio na peça As Rãs (405 a.C.), de Aristófanes, com as expressões que
Nietzsche identifica nesse deus em sua filosofia. A partir dessa demonstração, defende-se que
tais expressões tendem a se consolidar como conceitos em diferentes fases do pensamento
nietzschiano e que tais conceitos sejam, precisamente: disfarce (Verkleidung, no sentido de
vestimenta, fantasia), ctonismo (Erde, terra) e reconciliação (Versöhnung). O enredo de As Rãs
se faz claro quanto a esses três aspectos: há cenas de disfarce de Dionísio no caminho rumo ao
Hades, bem como momentos de tensão harmônica entre o humano e o divino, o masculino e o
feminino, o cômico e o trágico. O jovem Nietzsche parece encontrar afinidade com a crítica
que Aristófanes dirige ao eruditismo textual das peças de Eurípedes. Na conferência sobre
Sócrates e a tragédia (1870) constam referências à peça aristofânica que ilustram a crítica do
então professor de filologia clássica ao eruditismo acadêmico de seu tempo. Para além desse
texto, o filósofo citará Aristófanes em toda sua obra, na maioria das vezes em relação aos
aspectos supracitados. A afinidade de Nietzsche com essa visão aristofânica de Dionísio parece
coincidir com suas ideias de “segunda natureza” (disfarce) nos âmbitos da moral e da cultura,
da terra como espaço “demasiado humano” (ctonismo) e da reconciliação entre arte e natureza
nas reflexões sobre a tragédia. A relevância dessa demonstração consiste em evidenciar o
modelo dionisíaco construído por Nietzsche e sua aplicação no enfrentamento do problema
ético-estético da dor. Dionísio é o deus híbrido dotado de vivências trágicas e cômicas, bem
como de habilidades de recriação de condições sempre novas de existência. Na obra de
Nietzsche esse deus consiste em um modelo conceitual para que se possa pensar o humano em
suas limitações e possibilidades no mundo da cultura. Desta forma, o desenvolvimento de uma
relação de tensão entre comédia e tragédia como traço característico de uma projeção criativa
de tipo humano possibilita uma avaliação do que há de cotidiano (cômico) e significativo
(trágico) na experiência do sofrimento. Através do cultivo de virtudes da terra (ctônicas), pode-
se falar na produção artística de uma segunda natureza no homem que lhe possibilite a
reconciliação consigo mesmo no mundo em que vive.
Palavras-chave: Nietzsche; disfarce, ctonismo; reconciliação.