atómica maio de 2026 | Page 36

Dr. José Fragata:

UM PERCURSO PROFISSIONAL MOVIDO PELO CORAÇÃO

Maria Moura, Sofia Cruz e Mariana Fernandes

José Fragata é um médico de reconhecido mérito, extremamente envolvido na sua área, tendo ao longo da sua carreira assumido diversos cargos de relevo no meio académico e institucional: professor catedrático jubilado da NOVA Medical School, integrou o Conselho Geral da Universidade NOVA de Lisboa e presidiu ao seu Conselho de Ética; distinguido com a Medalha de Ouro de Serviços Distintos do Ministério da Saúde e da Ordem dos Médicos, é atualmente presidente do Conselho Nacional dos Centros Académicos Clínicos. Especializou-se em cirurgia cardiotorácica, focando-se na área das cardiopatias congénitas, ou seja, malformações na estrutura do coração, que ocorrem aquando da formação do feto. O próprio descreve a escolha desta especialidade como um “encontro na estrada de Damasco”, ou seja, um momento inesperado que representou uma verdadeira revelação e uma viragem decisiva no seu percurso.

Inicialmente, pretendia apenas lecionar a disciplina de anatomia humana. No entanto, durante uma apresentação no Algarve, surgiu a oportunidade que mudaria o rumo da sua carreira: “Estava lá um senhor (...) que no final veio falar comigo e disse: (...) «O meu nome é (...), estou a montar o serviço de cirurgia cardíaca no Porto. (...) Tenho um amigo meu que está a montar o serviço agora em Lisboa, em Santa Cruz (...) e ele anda a precisar de gente»”. Ao ser convidado a integrar o serviço de cirurgia cardíaca em Santa Cruz, iniciou de imediato funções como cirurgião. Como o próprio refere: “de repente uma pessoa está num sentido, vai apresentar um paper científico e sai de lá com uma vocação”.

Em 1983, nasce a sua filha, diagnosticada com uma cardiopatia congénita, necessitando de intervenção cirúrgica aos quatro anos de idade. Esta experiência teve um impacto profundo na sua vida pessoal e profissional. Nas palavras de José Fragata: “Nós ficámos muito despertos para as cardiopatias congénitas e foi uma causa a que a minha mulher e eu mais ou menos nos dedicámos durante a vida toda”. Sempre deu muita atenção ao bem-estar mental do paciente. Como afirmou o próprio: “Não é possível falar de medicina só olhando para a parte técnica, porque os médicos não tratam o corpo, tratam o doente todo. Um médico que esquece a parte humana está só a tratar metade da matéria-prima. Por outro lado, existe evidência de que uma pessoa pode ser tratada, mas para ser curada também tem que ser curada psicologicamente”. Assim, para este profissional, a prática médica só é verdadeiramente completa quando integra, de forma equilibrada, a competência técnica e a dimensão humana, reconhecendo que a cura vai para além do tratamento físico. Da mesma forma, a ética médica sempre lhe pareceu muito importante , tendo escrito vários livros acerca do assunto, como O Erro em Medicina, que foi causa de muito impacto na altura em que foi publicado, uma vez que destapou um problema que as pessoas achavam que não existia, mudou a forma como a sociedade passou a ver os erros em Medicina e até contribuiu para que ocorressem menos erros.

O seu percurso revela não só a exigência técnica da sua profissão, mas também o peso humano das decisões que teve de tomar ao longo da vida. A prática cardíaca exige não apenas conhecimento, mas também humildade e uma consciência permanente da fragilidade da condição humana.

É neste registo que o próprio reflete sobre o risco e a responsabilidade inerentes à sua profissão: “Tive de tomar decisões muito sérias na minha vida. A medicina envolve decisões e a cirurgia cardíaca envolve decisões rápidas, de risco e de uma consequência tremenda. Tem de se agir sempre com um enorme respeito pelos doentes, ou seja, pensar menos em nós e pensar mais nos outros, tendo sempre a certeza de que a linha que separa a desgraça do sucesso é muito ténue. Fiz coisas boas, mas o risco, hoje em dia, assusta-me.”

Quando questionado sobre as qualidades fundamentais para seguir cirurgia cardiotorácica, desmistifica a ideia de um talento inato, valorizando sobretudo a dedicação e o compromisso exigidos por esta área: “A cirurgia é 60% cabeça e 40% mãos. Não é nenhum dom, é uma tecnologia como qualquer outra que se aprende. As capacidades não são tanto físicas nem cognitivas, mas são capacidades de dedicação, porque uma carreira destas implica a dádiva de uma vida. Depois, uma pessoa, nesta especialidade, tem de ter resiliência: a qualidade de ir abaixo e levantar-se ainda mais forte; a capacidade de perder um doente num dia e, no dia a seguir, ir operar um doente igual. Nunca desistir."

As inúmeras cirurgias realizadas ao longo da sua carreira incluem quase 300 transplantes cardíacos, assim como a primeira implantação no país de um dispositivo chamado Berlin Heart numa criança de apenas 22 meses, dia 9 de agosto de 2005.

O coração artificial é um dispositivo médico criado para substituir ou apoiar a função cardíaca em pacientes com insuficiência grave do coração. Existem dois tipos de dispositivos principais: o coração total artificial e os dispositivos de assistência ventricular (VADs). O coração total artificial consiste em duas bombas que substituem completamente o coração natural. Estas bombas são colocadas no local do órgão e assumem a função de bombear o sangue pelo corpo. No entanto, como esclarecido por este médico, trata-se de uma técnica ainda experimental, com experiência limitada e resultados insatisfatórios. Não é um procedimento comum e, em Portugal, nunca foi realizado.