atómica fevereiro de 2026 | Page 9

Fadinha-elegante (Malurus elegans).

Foto gentilmente cedida por Frank McClintock.

No ano passado, o Clube de Ciência realizou uma visita de estudo ao Espaço de Visitação e Observação de Aves (EVOA), e no seguimento da visita achamos adequado entrevistar Frank McClintock, de 66 anos, residente em Santa Clara-a-Velha, no Alentejo, e guia profissional de observação de aves há 37 anos.

Segue-se a entrevista conduzida pela aluna Maria Vieira:

Maria: Como e quando começou a observar aves?

Frank: Comecei a ver aves quando tinha cerca de três anos e meio e sempre me interessei pelo mundo natural. Não são só as aves, são também borboletas, libélulas, tudo […] mamíferos, tudo. Estou interessado na natureza. Vivemos com esta vida selvagem incrível à nossa volta e devíamos valorizá-la, cuidar dela e tentar preservar o que temos.

Acho que a natureza é simplesmente a coisa mais incrível com que somos abençoados por poder observar. Eu não acredito em Deus. Acho que esta vida é a que temos, não temos nada depois dela, e acho que somos incrivelmente sortudos por viver num paraíso neste momento, porque temos um paraíso.

Maria: Qual foi a primeira ave que realmente chamou a sua atenção?

Frank: Bem, consigo lembrar-me de quando tinha três anos e meio, eu estava em África, e lembro-me de ver uma gazela a saltar pela estrada à nossa frente […] essa foi a minha primeira memória de sempre no que diz respeito ao primeiro animal. Quanto à primeira ave, quero dizer, há tantas. A primeira ave que realmente me chamou a atenção aqui em Portugal foi um chamariz (Serinus serinus). Vês estas aves, que sem binóculos parecem castanhas, mas quando se põe um par de binóculos são de um amarelo brilhante, são como um canário, são simplesmente deslumbrantes. São uma avezinha muito irrequieta, têm mais ou menos o mesmo tamanho de um canário (Serinus canaria), muito pequenas. Consigo lembrar-me dessa. Mas a primeira ave em geral que me chamou a atenção, não sei. Tinha aves à minha volta quando era criança.

Maria: Houve alguém ou alguma situação em particular que o tenha inspirado a começar?

Frank: Quando construí este pequeno hotel onde estamos a viver neste momento, logo nos primeiros anos, houve um tipo que disse: “Frank, tu sabes alguma coisa sobre aves e essas coisas?” Eu disse: “Sim, sei um bocadinho.” “Podes levar-me a alguns sítios?” E eu disse: “Sim, está bem.”

Então levei-o a alguns sítios e ele disse: “Frank, devias começar a fazer isto como profissão, devias começar a levar pessoas para estes sítios como trabalho.” E eu disse: “A sério?” “Sim, sim, devias fazê-lo.” Então animei-me e comecei a fazer isto como profissão. E foi assim que tudo começou realmente, como guia, e agora sei bastante mais.

Maria: Qual foi a coisa mais incrível que lhe aconteceu enquanto observava aves?

Frank: Bem, quando conheci a Daniela, a minha mulher, tentei convencê-la a ir a um encontro comigo. Então ela disse: “Bem, sim, o que é que queres fazer nesse encontro?” E eu disse: “Bem, vamos observar aves!” E ela disse: “O quê?” Eu disse: “Sim, vamos observar aves, isso é ótimo.” “Queres dizer que vamos simplesmente a algum sítio e ficamos a ver aves?” Eu disse: “Sim, a pista está no nome!”

Consigo lembrar-me desse dia, estava muito, muito calor, era como hoje, estavam uns 45 °C ou qualquer coisa assim maluca. Era um dia em que, quando saíamos do carro, parecia que alguém nos estava a bater na cabeça com um martelo, estava assim tão quente, era só tipo “ahhhh”. E claro, as aves não sabem disso. Eu estava a tentar mostrar-lhe um sisão (Tetrax tetrax) […] nessa altura havia bastantes e agora estão a enfrentar muitas dificuldades e os números estão a cair a pique, mas ainda as conseguimos encontrar aqui no Alentejo, temos é de procurar muito bem; mas nesses dias viam-se com bastante frequência […] mas nesse dia não consegui encontrar nenhuma, não as conseguia encontrar, e pensei: onde é que elas vão estar?

E elas gostam de estar em espaços muito abertos, onde não há sombra nenhuma, e eu pensei: bem, hoje vão querer alguma sombra. Então comecei a verificar todos os sítios onde eu conseguia pensar que pudesse haver alguma sombra, e eventualmente encontrei-as.

Havia este poste, um poste de eletricidade, no meio de um campo completamente aberto, e havia apenas uma linha de sombra que atravessava o campo todo a partir do poste, e elas estavam todas ali, em linha, nessa sombra, ao longo da sombra toda. E a cada dois minutos iam só avançando um bocadinho para continuarem na sombra.

Isso foi bastante fofo, mas já vi muitas coisas […]

Maria: Já enfrentou dificuldades ou situações inesperadas durante as suas saídas?

Frank: Oh sim, muitas dificuldades. Fiquei com o carro atascado algumas vezes no meio do nada. Eu vou observar aves por todo o mundo com a Daniela e houve alturas em que tivemos dificuldades.

Na Namíbia tivemos um furo e a oficina mais próxima ficava a uns 100 km de distância, atravessando o deserto, e por isso tivemos de tentar lá chegar. Tivemos de atravessar pontes que não deviam ser pontes para chegar a certos sítios, acabámos metidos em todo o tipo de aventuras, porque se fores observar aves isso leva-te a lugares fantásticos por todo o mundo.

Pegas num par de binóculos ou numa câmara e vais a qualquer lado e encontras aves, mas para tentares encontrar aquela espécie específica que queres ver, às vezes tens de ir a sítios mesmo muito estranhos […]